Terapia de Batom


Mais um café gelado, por favor!


_ Mais um café gelado, por favor!

A moça atrás do balcão começou a aprontá-lo.

Fazia frio em Dublin, mas ela não deixava de tomar seu café gelado por nada.

Os livros todos em cima da mesa, os óculos esquecidos e o casaco na cadeira. Enrolada no cachecol mais quente que possuia, Laura tentava esquecer de si mesma e se entregar às críticas que teria de levar na manhã seguinte ao jornal.


_ Aqui está! - disse a garçonete. Logo após, um gole refrescante e ao mesmo tempo aquecedor, fez sumir uma boa parte da bebida.

Ela estava sozinha pela primeira vez naquele ano. Namoros emendados e a descoberta de que precisava de um tempo para se conhecer.

No auge de seus trinta anos, mal sabia o que queria, muito menos o que sentia. Andava mais indecisa que quando adolescente e ria de suas dúvidas quando olhava no espelho.

O problema não estava nos homens sem atitude, nem no ciúme excessivo que sentiam de sua doce liberdade de comunicação. O problema era bem mais simples, ou, bem mais complicado.

Não queria se casar. Ter filhos? Ah, quem precisava deles?

Na verdade ela adorava crianças, mas se traumatizou com a maternidade desde que seu maior amor deu errado.

Ser livre? Ela já era. Já tinha seu apartamento quitado, seu carro novo e seu guarda-roupas estourando de tantas opções. Mas ainda assim, faltava... e a falta a invadia nas noites de insônia entre as linhas de seu computador.

Queria mais. Não era uma adolescente, nem uma jovenzinha. Estava amadurecendo e as rugas começavam a despontar em seu rosto. Outro dia mesmo percebeu fios brancos em seu cabelo (o que a fez ir ao cabelereiro retocar as luzes). Vaidosa sim, e com muito orgulho! - costumava declarar aos amigos.

Combinava o par de brincos com a blusa e até mesmo com os penduricalhos da bolsa. Já acordava maquiada e ainda que chorasse a noite toda, nunca perdia a pose.

Porém, já se perdera de si mesma. E por mais de uma vez.

Costumava beber quando se sentia triste/ irritada/ entediada. Costumava fumar para espantar o nervoso, mas agora nada disso surtia mais efeito.

Triste? Imagina! Mulheres como Laura jamais se sentem tristes. No máximo, confusas.

Entre seus devaneios todos, percebeu que o café estava perdendo o gosto e as horas passavam depressa. Não era tão fácil tecer as críticas de cinema alternativo e agora eram elas que necessitavam de sua atenção. Se viu envolta à resenhas e mais resenhas de filmes e decidiu que ao menos por enquanto, deixaria seus pensamentos para depois.
                                                                     
                                                                              (Érica Marin)


Escrito por Mulheres no Divã às 10h53
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