Rindo de si mesma ou para si mesma???
Ela se olhou no espelho. Estava gorda, acima do peso. Seu rosto com olheiras nunca antes vistas. Seu rosto com espinhas só vistas na sua primeira fase da adolescência. Seu nariz mais batatinha como jamais fora antes. E os pelos???? Pelos que nunca tivera antes, onde nunca imaginaria que pudesse ter algum dia. Pensou consigo mesma, pra rir de si mesma como ja era de costume: "com estas costeletas podia ganhar uma grana fazendo cover do Elvis!!!".
E riu sozinha de si diante do espelho. Foi tomar banho cansada, morrendo de dor nas pernas. Mal conseguia ficar de pé no chuveiro depois de mais um dia estressante de trabalho. Não ela não trabalhava de pé. Mas tinha que atender o público o dia todo. Velhinhos, gente muito pobre, gente muito rica, gente muito nova, gente muito legal, gente muito chata, mas principalmente gente muito exigente, cheia de direitos, sem nenhum dever...... E aquilo sempre fora meio chato, e agora estava pra lá de cansativo. Mas aí ela pensava: "Não estou carregando carvão numa mina, nem cortando cana de baixo de sol, tá bom até." E ria de si mesma. Mas às vezes sentia falta de ar, ou até um pouco de dor por não conseguir ir ao banheiro sempre que precisava.
Mas voltando ao chuveiro. As pernas doíam, na verdade o pescoço também depois de tanta tensão do dia. Mas nem percebia tanto mais. Olhou para aquele corpinho, que nada tinha de modelo de revista ou atriz de televisão, olhou pra sua barriga saliente, e riu. Estava feliz. E podia dizer pra qualquer um que estava mais feliz do que qualquer uma dessas modelos magérrimas sorridentes de capa de revista.
Sim ela era feliz!
Pensou na sua vida. Nas coisas que queria ter feito e não fez, como todas pessoas pensam. E riu de novo: "se tivesse feito o que queria não teria chegado até este momento". Não era muito velha, mas tinha uma certa sabedoria. Sabia que o que temos, que o que somos, depende do que fizemos. E tudo de ruim que viveu pareceu pequeno, pois sua vida tinha levado ela até este momento.
Jurou pra si mesma seguir os conselhos de seu marido: "Deixe de dar importância pra estas coisas idiotas". E sabia que precisava mesmo fazer isso. Não seria bom agora ter preocupações a toa, ficar ansiosa, passar nervoso, ficar triste. Mas ela não podia mudar sua rotina. Tinha então que mudar a forma que enxergava tudo isso. E jurou que dessa vez mudaria.
Mas dessa vez jurou em voz alta, não foi só em pensamento. Olhou de novo pra sua barriga já meio desengonçada, para o seu umbigo querendo sair pra fora. E disse em alto e bom som, pra que ela pudesse ouvir: "prometo ser uma pessoa melhor pra você!".
Pensou no mundo. Ficou com medo. Pensou nas pessoas que amava. Sentiu consolo. Pensou em si pequenina, com medo de ficar sozinha, com medo de dormir no claro (sim ela era diferente desde pequenininha). Pensou em como seria aquela pessoinha. E pensou: "Como a gente pode amar tanto alguém que a gente nem sabe como é?".
E de novo riu de si mesma. E pensou no quanto era feliz de verdade.
Manuela Araujo Toda
Escrito por Mulheres no Divã às 10h58
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