Terapia de Batom


Engano

 

 

 

Um leve engano foi esse o pensamento de Nívea quando Mateus lhe disse coisas tão banais, mas que fizeram com as suas certezas (desconfianças) escorressem pelos dedos naquela noite.Ela pensara  que bobeira era aquela de duvidar dele bem naquele exato momento.Está certo que não o conhecia a muito tempo, mas o suficiente para que Nívea soubesse que Mateus tinha algo que lhe inspirava confiança e que mereceria dela um esforço para que uma relação ali existisse.

E é isso que às vezes  frustrava Nívea, as constantes investidas, comentários e iniciativas que ela tomava, quando Mateus parecia estar mais preocupado em rever a sua vida, os seus conceitos voltando-se para os seus pensamentos e perdendo por inúmeras vezes o momento certo de pegar as mãos de Nívea.

Nívea pensava que não era possível que Mateus tivesse ora timidez demais, se por muitas vezes parecia ter fluência e confiança demais em que dizia e fazia.Será que estaria ele desinteressado? Ou será que isso era só fantasia de Nívea? Ela oscilava entre seus pensamentos e ora preferia crer que de fato algo ali existia e que ultrapaza a amizade, ora pensava que na verdade ele gostava de sua companhia, de contar os seus casos e pensamentos e que encontrava ali espaço para compartilhar com ela essas idéias que tanto martelavam em sua cabeça, mas Nívea não estava certo se era isso que queria.As duas coisas.Não queria ser apenas mais uma amiga e se conformar em sentar noites de domingos com ele a mesa, pedir uma pizza e conversar sobre as banalidades da vida, ainda sim que isso lhe agradasse.Tampouco estava certa que deveria tomar partido de algo mais sério, assumir um compromisso.

Nívea pensava em algo mais profundo, de pertencimento.Questionava-se naquela noite que diabos fazia ali?Tão incerta do que queria, já não sabia o que fazia.

Como podia Nívea que se via como tão segura estar incerta naquele momento e pior do que essa insegurança era incerteza do que dali pra frente viria.Isso misturou com um sentimento de impotência.Nívea pensou por algumas vezes em virar para Mateus e lhe dirigir com a maior normalidade (que ainda possa ter) e num só golpe perguntar “Qual é a sua?”, mas pensou que não teria como questionar isso diretivamente, pois bem sabe que em seguida da resposta (se chegasse) viria um diretivo incisivo de Mateus questionando “E você?”. Boa pergunta! Nem ela sabia, ou talvez soubesse no fundo, mas não se sentisse na condição de assumir seu desejo, pois ele parecia ainda tão dependente da resposta de Mateus.Nívea começava a temer uma dependência, afinal por quantas vezes o seu desejo esteve submetido à opinião alheia.Nunca, de fato ele poderia no máximo ser revelado de acordo com a opinião alheia, pois bem algumas vezes fora necessário disfarçar, esconder o que se sentia para evitar o sofrimento.Que boba!Ela mal sabia que o sofrimento viria em outra forma: o da renuncia.E renunciar bem sabia Nívea que não era saudável, ela até aceitava perder, não obter, mas desistir aí seria demais.

Desconversou naquela noite e Mateus percebendo o seu jeito questionou a sua estranheza e lhe perguntou o que havia acontecido.Nívea naquele momento teve a oportunidade de revelar tudo isso que habitava sua mente, mas não o fez.Apenas encarou-lhe com um olho no olho , que parece ter lhe constrangido e que buscava por ali retirar respostas para sua inúmeras perguntas.Desistiu, resolveu se calar, como ele mesmo havia lhe dito “Se não quiser falar, tudo bem”, mas que mais tarde em outro momento viria ele novamente questionar.

Nívea não se conformava, como poderia ela condicionar os seus desejos e pior a sua fala em detrenimento do outro, foi quando se lembro do que Mateus por inúmeras vezes lhe disse: “É o apego que gera sofrimento”.Mas pior ainda pensava Nívea, "Como não se apegar?" Era essa a mais nova tentativa de Nívea para compreender Mateus.Ele deveria não querer se apegar, mas estaria ele nessa vida à passeio?

Nívea novamente desistiu e resolveu ir dormir, ainda que esses pensamentos lhe martelassem a noite inteira.Suspendeu seus pensamento, pelos menos por ora, afinal fora  bastante àquela noite, entre acertos e desacertos as suas fantasias pareciam criar mais enganos, pelo menos por enquanto...

 

Camila Bombonato



Escrito por Mulheres no Divã às 11h25
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