Terapia de Batom


Faça sua história

Eu sempre insisto em dizer que não existem príncipes e princesas. Mas depois que Walt Disney chegou e mudou a maioria das histórias fica mesmo difícil não querermos ser a bela moça que depois de certo sofrimento, é feliz para sempre ao lado de seu par.

O problema é que vivemos no impasse de sermos princesas ou heroínas esquecendo que podemos ser a Érica, a Camila, a Rebecca, a Joyce e tantas outras.

Não quero ficar enclausurada no castelo como a Cinderela e nem enfrentar a Guerra dos Farrapos como Anita Garibaldi.

Quero ser um misto de medo e coragem, de sensibilidade e insensibilidade, quero ser eu sem cópias, quero ser eu sem que qualquer semelhança com a realidade seja mera coincidência.

Encontramos nos contos, livros, séries e novelas uma parte do que queremos ser. A outra, aquela que grita dentro de nós e muitas vezes é negada é o que nos torna verdadeiras protagonistas de uma história bem mais interessante, sem legendas, censura, aquela que não é apenas uma cópia genérica do que alguém escreveu...

Rebecca Araujo



Escrito por Mulheres no Divã às 08h23
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"Futebol é coisa para homem"

 

 

 

Quem nunca ouviu essa frase? Nos últimos tempos ela ganha cada vez mais novos adeptos. Os mais conservadores resistem em aceitar mulheres de chuteira correndo atrás de uma bola. Mas é inevitável, elas estão conquistando seu espaço. Seja ele como árbitra, comentarista, repórter, bandeirinha, ou mesmo nas arquibancadas, não importa como, elas estão cada vez mais presentes. Nada mais justo, afinal, não somos o país do futebol?

 

Nelson Rodrigues analisava um clube, uma partida através do seu destaque. Suas crônicas sempre tinham um personagem principal. Falemos então de Marta, canhotinha habilidosa, eleita por duas vezes seguida a melhor jogadora de futebol do Mundo e principal responsável pela quebra desse tabu que há anos toma conta do esporte.

 

Aos 18 anos, a camisa 10 saiu de Recife onde atuava pelo Santa Cruz e foi tentar a sorte na Suécia. Sozinha, sem o apoio dos familiares, sem entender o idioma e sob um frio rigoroso, Marta brilhou. Logo em seu primeiro ano foi um dos destaques de seu clube e comandou a seleção brasileira a inédita medalha de prata olímpica e no final do ano foi eleita a terceira melhor jogadora de futebol do mundo, atrás apenas da americana Mia Ham, uma espécie de precursora do futebol feminino, e da alemã Birgit Frings, sua sucessora. No ano seguinte, novamente as três na disputa, dessa vez com Marta em segundo lugar.

 

Em todas as eleições de melhor jogadora do mundo pela Fifa o prêmio foi conquistado ou pela americana ou pela alemã. Reconhecimento do futebol técnico e da força demonstrada pelas duas atletas. Mas em 2006 a habilidade, enfim, foi premiada. Marta, então com 20 anos, sobe ao palco da solenidade da Fifa, na Suíça, e como uma menina chora de emoção. Talvez, lembrando da infância sofrida, da falta de apoio dos familiares que não achava certo uma menina jogando futebol, do frio e da solidão na terra desconhecida, do descaso das autoridades e clubes do seu país.

 

No ano passado, na final do Pan-americano, Marta e suas companheiras realizaram o sonho que toda criança apaixonada deve ter tido em sua infância: jogou no Maracanã. E Não foi só isso. Jogaram no maior do mundo para um público de mais de 70 mil pessoas, que cantavam o orgulho de ser brasileiro a plenos pulmões. Orgulho esse que foi perdendo força com a falta de comprometimento dos homens com a camisa canarinho.

 

Na partida contra as norte-americanas, show brasileiro para ninguém botar defeito. Regido pela maestra Marta a seleção goleou de forma incontestável: 5 a 0. Depois da conquista, ainda no gramado, festa merecida para as brasileiras. Surge então, com sua leveza inconfundível, a vossa realeza. Como uma menina, Marta coloca um par de asas nas costas e, com lágrimas nos olhos, brinca, pula e se diverte com as companheiras. 70 mil brasileiros aplaudem de pé aquela seleção que devolveria um pouco do orgulho de torcer, talvez por em sua essência ter o sofrimento, as dificuldades, os problemas de cada um de nós brasileiros. Porém, em meio às adversidades, essas meninas mostraram sua garra, sua paixão pelo esporte bretão e, sobretudo, talento raro de se ver.

 

A graça, a leveza do futebol brasileiro estava de volta nos dribles de Martas; nas arrancadas fulminantes de Cristiane; nos chutaços de Renata Alves; na experiência de Formiga. Enfim, continuamos a ser, para alegria de Nelson Rodrigues, a Pátria em chuteiras. Mas dessa vez, os pés que calçam essas chuteiras são delicados. O futebol arte brasileiro renasce no palco que consagrou os maiores artistas que esse país já viu. De Pelé a Zico, todos reverenciam essas meninas, e, principalmente, sua estrela maior. O rei do futebol chegou a afirmar que Marta era “o Pelé de saias”.

 

Meses depois a seleção foi à China disputar o Mundial. Dessa vez com um tempero especial: a torcida de milhões de brasileiros que ainda estavam surpresos com o futebol apresentado por essas garotas. Nas primeiras fases o Brasil avança com certa facilidade pelas adversárias, inclusive, pelas donas da casa e candidata ao título. Mas o melhor ainda estava por vir. Nas semifinais, no dia 27 de setembro, contra os Estados Unidos, talvez a principal favorita ao título, o Brasil não tomou conhecimento das adversárias. Um inesquecível 4 a 0 foi placar da partida. Marta só não fez chover naquela partida. No pós jogo, aqui no Brasil, todas as mesas redondas de futebol mostravam as lances da pequena notável. Os comentaristas a comparavam com Zidane em um lance. No seguinte, lembravam de Mané Garrincha. Marta é desses atletas completos, que faz de tudo e com inexplicável perfeição. 

 

Marta é desses gênios que inexplicavelmente aparecem no esporte brasileiro. Quem imaginava que no meio da seca, no sertão de Alagoas, surgiria uma garota franzina com uma habilidade de deixar o rei do futebol de queixo caído? E mais: Jamais passou pela cabeça de qualquer brasileiro que essa garota, num país totalmente machista quando o assunto é futebol, sem respaldo algum das autoridades competentes, conquistaria o mundo. Marta é brasileira em sua essência, em sua história de vida. História de luta, garra e persistência. Não, esse não é mais um discurso ufanista. E, sim , um reconhecimento do Brasil que dá certo.

 

Para a coroação da menina guerreira número um do Brasil, só mesmo uma final de Copa do Mundo. Na manhã do domingo 30 de setembro, o Brasil parou para torcer por suas meninas. Algo mágico acontece nesses manhas dominicais. Novamente o brasileiro frente à TV para ver a consagração de um ídolo. Dessa vez, uma menina franzina, apenas um 1,60m, mas com um talento de gente grande. Começa o jogo e, como já era de se esperar, Marta é implacavelmente marcada. Para qualquer passo que a brasileira dava em campo, duas alemãs a acompanhava.

 

Logo no início da etapa final, a eficiente Prinz aproveita um rebote na entrada da área e abre o placar para as alemãs. O Brasil sente o gol e fica perdido em campo. Mas num lance individual, Cristiane é derrubada na área. Pênalti para o Brasil. Na cobrança, Marta tem as chances de se firmar no hall dos craques brasileiros. Mas quem disse que craque não erra? Assim como Zico, Sócrates, Baggio, Zidane, dentre outras feras, Marta perde o pênalti e com ele a chance de dar o título inédito para o Brasil. Com a perda da cobrança, a seleção que já estava mal em campo, se perdeu completamente e ainda viu Laudehr marcar e dar o bicampeonato para as alemãs.

 

As meninas do Brasil caem no gramado como derrotadas nessa batalha. Mas do outro lado do mundo, os brasileiros presentes nas arquibancadas fazem questão de mostrar que nessa guerra não há derrotadas. Muito pelo contrário. A seleção brasileira já saiu daqui do Brasil para o Mundial como vitoriosa, verdadeira campeã. Algumas das atletas conseguiram sair do Brasil e buscar espaço no mercado internacional, mas sua maioria ainda jogava aqui, não desistia do sonho de ser atleta profissional, mesmo sem o apoio da CBF, que prefere investir milhões no futebol masculino. Essas heroínas jogaram apenas por amor ao seu país e para dar um cala a boca nos machistas de plantão.

 

Temos por natureza o dom de desmerecer o vice campeonato. Frases como “o vice é o primeiro dos últimos” são bordões previamente colocados e algumas façanhas de nossos esportistas acabam passando em branco. Pois bem, podemos, e devemos, reconhecer o trabalho dessas meninas, não só pelo feito, mas, principalmente, pelo bom futebol apresentado. Agora, imagine essa seleção com apoio da CBF, essas meninas disputando campeonatos de clubes no país, afinal, a única coisa que elas pedem é isso: profissionalismo. Será que é muito?

   

Ainda no ano passado, nas vésperas do clássico Corinthians e São Paulo pelo returno do Brasileirão, Em meio à dramática campanha corintiana na competição, que culminou com o rebaixamento da equipe, Marta revelou ao Lance! ser torcedora do clube e que tinha o sonho de jogar um dia pelo seu clube do coração. Agora, pergunto eu, qual o torcedor corintiano que em meio aquele festival de pernas-de-pau que o time exibiu no ano passado não sonhava em ver a alagoana com a camisa 10 do clube? Imagine ela no lugar do Aílton com a 10 do time.  

 

Para encerrar com chave de ouro seu ano brilhante, Marta foi novamente à Suíça receber o prêmio de melhor do mundo. Ao seu lado, Kaká também recebeu o prêmio. Mas diferentemente das últimas idas a solenidade, a alagoana não é mais uma mera coadjuvante, passa a ter seu espaço, a ser reconhecida mundialmente. Graças a seus dribles, arrancadas e gols que tanto nos encanta. Marta pôs fim a uma das frases mais antigas e infelizes da história do futebol. Seria o futebol um esporte apenas para os homens mesmo? Esse ano temos Olimpíada, quem sabe nossas meninas não trazem o tão aguardado ouro no futebol. Tomara!

 

(Danilo Neves)

 

“A Fifa deveria decretar que o dia 27 de setembro passa a ser o Dia de Marta.

Porque Marta não se marca.

Marta mata a bola como o quê.

Marta mete a bola onde quer.

Marta martela quem corre atrás dela.

Marta mistura Pelé e Mané.

Na Terra não há quem jogue como ela.

Dona Marta, Marta dona de talento sem igual.

Marta de Marte, a Marta é de morte, genial”.

(Juca Kfouri)

 

 



Escrito por Mulheres no Divã às 01h05
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