Sobre o que escrever?

Sobre o que escrever? Sempre fiz isso com as palavras: as usei. Sabe quando uma mulher diz indignada pra um homem ao descobrir uma traição: “Você me usou!”. As palavras poderiam fazer o mesmo comigo.
E eu me envergonho disso a cada dia que passa. Sabe por quê? Elas estão se vingando de mim sabe. Estão sendo cruéis. Mais do que vocês poderiam imaginar. E eu me sinto tão malvada quanto um autor de música brega, que usa sempre as mesmas palavras para piorar a situação das coitadas: além de usadas, são sempre as mesmas.
Quando estou triste acabada, e preciso dizer algo que não sai....
.... bom ai eu abuso delas, faço um uso exagerado, profundo, e lá estão elas. Pobrezinhas, largadas em letras horríveis, representando todo meu amargor com o mundo. Mostrando minha dor de ser humana, e portanto imperfeita, cheia de dúvidas.
E quando preciso dizer algo pra alguém e falo besteiras que não queria, como eu conserto a porcaria? Lá vou eu apelar para as pobres, tão quietas, acabam lavadas de lagrimas e saliva (sim porque eu não só escrevo, eu converso com elas também).
Ai eu consigo organizar o MEU pensamento a partir deste proveito que tiro das desamparadas. Afinal quem poderá defendê-las do monstro que sou?
É sempre assim: quando tudo vai bem eu as deixo pra trás. E vou viver minha vida feliz. Mas quando tudo parece um oceano bravio, e eu preciso ter onde me segurar, volto correndo pra elas.
Elas sabem antes de todo mundo esta dor, este sofrimento, que tem gente que nem imagina que eu possuo dentro de mim. Até porque olha só: tenho cara de sofredora? Sei que não. Tenho motivos pra sofrer? Aprendi, depois de muito sofrer por achar que não tinha o direito de sofrer, que todo mundo tem direito a sua dor. Mesmo o mais bem sucedido e rico dos humanos tem esse direito.
Mas hoje a questão não é essa. Me sinto bem. Estou feliz, estou sorrindo pra vocês, não podem ver? Estou de férias. Pude viajar pra um lugar incrível. Tem um homem lindo que me ama e me trata feito rainha no sofá ao meu lado. Tem também dois gatinhos lindos e fofos me olhando. Tem um teto sobre a minha cabeça neste dia frio. Tem uma geladeira cheia.Tem um telefone com linha, e o mais importante, tem mais de cinco números que eu posso ligar se eu quiser conversar agora (e olha que já é mais de uma da manhã).
Tem um monte mais de coisas legais, apesar das misérias do mundo que sempre me assombram a consciência. Porque hoje resolvi me dar o direito, que poucas vezes me dou, de ser só por agora um pouco ignorante. E lembrar só das coisas boas. Hoje resolvi ser legal com elas.
Hoje vai ter sol, como ontem. Eu vejo a felicidade das crianças brincando num churrrasco de domingo com a família. Eu vejo o amor que eu sinto por todos e tudo que me rodeia tomando conta de mim. E é por isso que hoje vou escrever as mais bonitas e felizes palavras. Porque elas sempre me ajudaram, sempre estiveram do meu lado. Mesmo quando me senti a mais miserável criatura, elas sempre estavam lá. Me apoiando, me mantendo viva. Sendo meu desabafo, sendo minha dificuldade, sendo minha muleta, e até sendo meu orgulho às vezes. Muito obrigada por existirem!!! E principalmente, muito obrigada por me deixarem existir. VIDA, AMOR, MÚSICA, FELICIDADE, LUZ, GATO, IRMÃ, AMIZADE, CACHORRO, CRIANÇA, MÃE, PAI, SOL, MAR, FESTA, PROSPERIDADE, SAÚDE, VIAGEM, BONDADE, FÉ, CHUVA, ARCO-IRIS, PAZ, FOFINHO, SORRISO, BOIZINHO, LIVRO, FILME, DANÇA, GRATIDÃO, PLANTINHA, MUNDO, SORVETE, DESENHO, BRINCADEIRA, SILÊNCIO, FAMÍLIA, ENCONTRO, ABRAÇO, CARINHO, DESCANSO .............
Vão minhas palavras, sejam felizes, soltas ao vento. Obrigada!!!
Manuela A. T.
Escrito por Mulheres no Divã às 06h07
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