
Santo pão
As folhas caídas na tarde de outono faziam um barulho suave, como o desembrulhar de um presente. Sexta-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio.
Não que ela acreditasse nessas coisas, mas não custava solicitar uma ajudinha divina, afinal passara mais uma vez o dia anterior, dos Namorados, sozinha.
O fato não era o dia em si, nem as pessoas que não se desgrudavam nas ruas e os corações espalhados pelas lojas dos shoppings. Não eram as flores que saltavam lindas e sorridentes aos seus olhos na floricultura e muito menos aquela noite gostosa que fazia convite a um bom drinque de maracujá. A culpa era do seu gênio, ou quem sabe, do destino que fugia de suas mãos e seus poderes.
Apesar de se achar gorda durante toda tpm, de querer ter mais cinco centímetros de altura e menos cinco de cintura, ela se achava bonita. Assim, meio sem jeito, atrapalhada e espalhafatosa, mas bonita. O jeito com que gesticulava as mãos quando falava chamava a atenção dos homens, mas ela definitivamente não se achava apaixonante. Era mandona, orgulhosa, e isso afastava dela os relacionamentos de longa duração. Quando não eram eles que se cansavam de tanta exigência, era ela.
Mas quer saber? Nem ligava. Ou ao menos, demonstrava que não.
Porém, lá no fundo dormia um choro entalado de quem, mais uma vez, teve seu sonho interrompido. Fazer o quê? – se questionava. E assim, nunca dera sequer o braço a torcer e disse a verdade a eles. Achava inútil se humilhar pela atenção do sexo oposto, uma vez que são todos iguais.
Mas, parece que antes tudo isso era mais fácil. De uns tempos pra cá a sua sensibilidade havia aumentado. Será por causa da idade? Será que porque todas as suas amigas já estavam casadas e com filhos e ela ainda nem sabia dizer o que era ter uma aliança dourada na mão?
Na verdade ela só sabia sobre o aumento dos preços no supermercado, sobre a alta do dólar e sobre o governo Lula. Sabia sobre todas as marcas de sapato e os preços das bolsas da Daslu. Sabia tanto e ao mesmo tão pouco que se sentia burra quando em festas de família o assunto era casa e marido. Para rebater suas deficiências dizia ser independente e tentava se enganar: “isso tudo é bobagem”.
Talvez fosse apenas uma reação natural da modernidade, ou quem sabe uma inspiração exagerada daquelas capas de revistas femininas, onde esquecem que antes de ser uma profissional, a mulher tem desejos de mulher e suas necessidades prioritárias como amor e carinho, pois ninguém no mundo pode ser feliz sozinha. E era exatamente nisso que ela estava pensando no bendito dia do tal santo casamenteiro. Se fosse besteira ou não, dessa vez iria arriscar e decidiu fazer uma promessa.
Foi à igreja e entrou em uma fila gigantesca em busca de um mísero pedacinho de pão velho, tal qual aprendera ali o significado: fazia milagres!
Não acreditava muito, mas deveria haver algum sentido para que aquelas centenas de solteiras se sacrificassem naquela fila e então, agüentou firmemente a espera.
Chegando sua vez tentou imaginar como ela comeria o tal pedaço, que não parecia nada com um belo lanche do Mac Donald’s. Entrou na primeira padaria que enxergara para com um copo de leite poder cumprir a missão e atingir o milagre de não ficar para titia. Ao seu lado no balcão um homem ria ao notar o pedaço de pão em suas mãos e interliga-lo à imensa fila do lado de fora. Ela nem percebeu, e ao pedir o leite, ele pediu o café, em uma sincronia de palavras surpreendente.
Pois é, ele era o café, ela o leite. Visivelmente diferentes. Ele alto, ela baixa. Ele sério, ela cativante. Começaram a conversar e ela lhe contou sua aventura atrás do pequeno pãozinho. Pela primeira vez foi sincera com um desconhecido sem ter intenções. Ele se divertia a cada palavra que ouvia e a achou interessante por isso mesmo, o humor simples de uma mulher comum. A beleza ali nem era tão importante, mas não seria mentira afirmar que ambos haviam notado os pontos físicos que lhe agradavam mutuamente.
Trocaram telefone, marcaram alguns drinques e conversavam de tudo a cada novo encontro, até que em uma bela noite de outono, dia de Santo Antônio, há exatamente um ano após terem se conhecido, começaram a namorar. Se casaram e agora estão ansiosos pelo nascimento do primeiro filho, que se chamará – como não poderia deixar de ser – Antônio, em homenagem ao santo que os uniu.
Hoje ela ministra palestras motivacionais para as solteiras que ainda não encontraram o príncipe encantado. Conta sua história, incentiva a autoconfiança e o acaso e diz que o segredo é aguardar o momento certo para florir. Continua não acreditando em superstições, mas todo o ano não deixa de ofertar uma vela cor-de-rosa (cor do amor) a ele que se tornou seu santinho de devoção. Coloca tudo no altar que fez seu marido construir em casa junto a um pedaço de papel com a frase: “Agradeço o milagre recebido”.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 22h26
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