Terapia de Batom


De onde vem a força

 

Acordei, como todo mês, com uma dor que além de me deixar sem ar, me contorcia pela cama. Travesseiro apertado, bolsa de água quente, remédio; nada disso fazia efeito. Malditas sejam as cólicas!

E como se não bastasse, ainda tinha que ajeitar o café da manhã, fazer supermercado, levar a filha à escola, inspecionar o trabalho da diarista, vestir a roupa apertada e o sapato de salto, trabalhar o dia inteiro, almoçar em dez minutos, ir ao salão de cabeleireiro e ficar linda para um jantar de negócios do marido à noite.

Era como se na mesa bem arrumada, repleta de pessoas inteligentes e gentis que falam o tempo todo em como os investimentos valem a pena, a minha dor tivesse passado, mas não - estava apenas maquiada, literalmente, no rosto e na espontaneidade de sorrir mesmo querendo chorar.

Ao chegar em casa, animado pelo vestido preto que me deixava atraente, ele ainda tentou fazer amor. Como? Eu pergunto – uma vez que não conseguia nem pensar com tamanha fragilidade e raiva (sim, porque nada mais irritante do que estar na TPM!).

Não é falta de amor, de atração física. Não é que o relacionamento está esfriando, nem tampouco que exista outra pessoa. Sou eu, minhas estranhezas de mulher e minha pura e inocente vontade de me deitar de lado, me encolher como um feto na barriga da mãe e dormir, dormir como um anjinho. Até claro, o despertador insuportável disparar aquele som terrível e começar tudo de novo.

Tentei explicar, respirei fundo e tive todo cuidado do mundo nas palavras. Se ele não entendeu, ao menos foi bem convincente. E quando tudo parecia estar caminhando bem, no meu cochilo costumeiro que antecede o sono, com as mãos macias dele acariciando a minha orelha, ela grita.

Sim, a bebê queria mamar! E como nesta tarefa não há marido que possa ajudar, lá vou eu, capotando de sono. 

Já sei toda a programação da Tv de madrugada. E aprendi como mãe de primeira viagem, como é a agonia de um seio que se parte pela falta de costume em amamentar. A cada sugada, a vontade de gritar misturada com o carinho inabalável de ver aquele rostinho tão pequeno matando sua fome.

Bem-vinda ao mundo real! – é o que as pessoas mais maduras me dizem e eu mesma começo a aceitar.

Mas tenho que admitir que apesar de trabalhoso e cansativo, nenhuma compra no shopping me fez mais feliz do que todo esse mundo novo que se abre a cada dia. Experiências únicas que me tornam mulher com M em cada lágrima, sorriso, destempero e zelo.

Ao pensar assim qualquer cólica se torna pequena. Deve ser por isso que dizem que as mulheres são fortes: porque sempre vêem o lado positivo, fazendo a beleza do amor ser maior que qualquer dor que possam sentir, transcendendo os limites de si mesmas para viabilizar a família, a vida.

 

                                                                      (Érica Marin) 

 



Escrito por Mulheres no Divã às 05h52
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Sapos ou príncipes?

 

Ela pegou o telefone.

Há dias estava se controlando ao olhar para o aparelho na tentativa de evitar mais uma ligação em que desligaria sem saber o que pensar, mas ele parecia mais irresistível que o maior pedaço de torta holandesa do Amor aos Pedaços.

Por um momento quis planejar sua fala, mas desistiu. Queria ser ela, dizer tudo o que estava sentindo, sem previsões ou jogos femininos.

Ele atendeu ao segundo toque. Aquela voz. O timbre lhe era tão familiar quanto todo o corpo, sempre tão íntimo como se o tivesse visto por toda vida em aulas de anatomia.

 - Liguei pra dizer que estava pensando em você!

Ele não deve ter entendido nada – concluiu.

 - Lembranças boas ou más?

 - Boas. Não me lembro das ruins.

Conversa vai, conversa vem. Se despediu com um sorriso de orelha a orelha.

Dessa vez ele fora mais claro, ou será que ela foi mais explícita?

Não haviam passado dez anos desde que se conheceram, mas a impressão que tinha é que virara de criança à adulta em menos de uma semana. Não era a diferença ao se olhar no espelho, mas a diferença notória em seus pensamentos e atos.

Isso a assustava no começo, agora não. Se sentia autêntica, aprendera a olhar nos olhos, falar a verdade nem que ela fosse impiedosa, a dizer não, saber o que quer para si, assumir seus medos e enfrentá-los. Aprendera até a concordar com as pessoas, uma raridade.

Agora sim se sentia mulher, dona de seu nariz e suas opiniões.

Agora olhava de frente, cabeça erguida. Ele não era mais algo inatingível ou intocável. Era o homem que apesar de inúmeras vezes ter duvidado, a amava.

Um conforto inexplicável a invadia, contrariando todas as inúmeras teorias feministas que sempre defendia com unhas e dentes.

Esses dias foi até obrigada a concordar com uma palestrante ao ouvir sobre o machismo. Teve que admitir que fazia sentido, pois também achava o máximo quando ele abria a porta do carro, pagava a conta, carregava as sacolas das compras, mandava flores, abria a latinha de refrigerante para ela não quebrar as unhas. Isso sim é o que costumava chamar de “homem de verdade”.

Ao fim da conclusão pegou um livro e foi ler.

 

Ela é apenas um exemplo. Uma amostra de como temos uma inteligência emocional duvidosa.

A verdade é que em forma de sapos ou príncipes, eles podem sim, em questões de segundos nos levar ao céu ou ao inferno, e muitas vezes até aos dois ao mesmo tempo. E por mais que neguemos, ainda estamos habituadas (ou apaixonadas) pelo conceito do felizes para sempre, com a esperança de unir a modernidade e independência feminina com a gentileza e a força masculina.

Os homens são de Marte, as mulheres são de Vênus – a eterna inspiração de livros, peças teatrais, filmes e afins mostra cada vez mais que as teorias muitas vezes são apenas teorias, pois na prática tudo muda de figura. O coração ainda vence a razão e nessa batalha, nem homens nem mulheres são vencedores. Quem ganha é o sentimento, e contra ele, nem a maior das inteligências é capaz de lutar.

Portanto, sapos ou príncipes, histéricas ou carinhosas, somos todos únicos em busca de algo muito maior que um par de chinelos ao lado da cama. Não somos auto-suficientes, e por mais que não queiramos admitir, todo mundo acha lindo aquele casal de velhinhos de mãos dadas nas ruas. Isso é o fluxo da vida, o fluxo do amor.  

                                                                  

                                                                         (Érica Marin)



Escrito por Mulheres de Fases às 00h00
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