Mais um café gelado, por favor! _ Mais um café gelado, por favor!
A moça atrás do balcão começou a aprontá-lo. Fazia frio em Dublin, mas ela não deixava de tomar seu café gelado por nada. Os livros todos em cima da mesa, os óculos esquecidos e o casaco na cadeira. Enrolada no cachecol mais quente que possuia, Laura tentava esquecer de si mesma e se entregar às críticas que teria de levar na manhã seguinte ao jornal. _ Aqui está! - disse a garçonete. Logo após, um gole refrescante e ao mesmo tempo aquecedor, fez sumir uma boa parte da bebida. Ela estava sozinha pela primeira vez naquele ano. Namoros emendados e a descoberta de que precisava de um tempo para se conhecer. No auge de seus trinta anos, mal sabia o que queria, muito menos o que sentia. Andava mais indecisa que quando adolescente e ria de suas dúvidas quando olhava no espelho. O problema não estava nos homens sem atitude, nem no ciúme excessivo que sentiam de sua doce liberdade de comunicação. O problema era bem mais simples, ou, bem mais complicado. Não queria se casar. Ter filhos? Ah, quem precisava deles? Na verdade ela adorava crianças, mas se traumatizou com a maternidade desde que seu maior amor deu errado. Ser livre? Ela já era. Já tinha seu apartamento quitado, seu carro novo e seu guarda-roupas estourando de tantas opções. Mas ainda assim, faltava... e a falta a invadia nas noites de insônia entre as linhas de seu computador. Queria mais. Não era uma adolescente, nem uma jovenzinha. Estava amadurecendo e as rugas começavam a despontar em seu rosto. Outro dia mesmo percebeu fios brancos em seu cabelo (o que a fez ir ao cabelereiro retocar as luzes). Vaidosa sim, e com muito orgulho! - costumava declarar aos amigos. Combinava o par de brincos com a blusa e até mesmo com os penduricalhos da bolsa. Já acordava maquiada e ainda que chorasse a noite toda, nunca perdia a pose. Porém, já se perdera de si mesma. E por mais de uma vez. Costumava beber quando se sentia triste/ irritada/ entediada. Costumava fumar para espantar o nervoso, mas agora nada disso surtia mais efeito. Triste? Imagina! Mulheres como Laura jamais se sentem tristes. No máximo, confusas. Entre seus devaneios todos, percebeu que o café estava perdendo o gosto e as horas passavam depressa. Não era tão fácil tecer as críticas de cinema alternativo e agora eram elas que necessitavam de sua atenção. Se viu envolta à resenhas e mais resenhas de filmes e decidiu que ao menos por enquanto, deixaria seus pensamentos para depois. (Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 10h53
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Gostosuras ou Travessuras?

Sempre ao acordar Marília pensava nele...
Às vezes no decorrer do dia também e era incômodo e estranho o quanto ele estava perto e longe...
E ela ora chorava e ora ficava feliz...
Por que ele insistia em fazer bem e fazer mal?
Ela não entendia suas razões, às vezes a segurava com força e depois a jogava em uma queda tão brusca e livre que ela quase deixava de sentir suas pernas.
Fazia sempre seu coração saltar pela boca, daquele jeito improvável como quem diz: Sabe qual a próxima surpresa agora?
Vivia em um eterno Hallowenn onde o questionamento: Gostosuras ou Travessuras era bem pertinente.
Da próxima vez que ele pousasse em seus pensamentos ou tentasse invadir sua vida ela ia lutar, brigar e querer o dom da clarividência para chegar avante.
Quando acordou no dia seguinte, não sentiu dores nas pernas e nem aquele medo de olhar suas veias saltadas quando algo muito emocionante acontecia.
Quando acordou sentiu uma onda positiva, seus pés ainda formigando e sua cabeça leve.
Pensou, pensou e disse em voz alta:
Hoje eu estou sem medo do futuro!
Escrito por Mulheres no Divã às 12h00
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2... 2.. 2
No mesmo horário em que se conheceram, assim como nos seriados americanos, colocaram um fim numa história parecia que não teria uma temporada final.
Completamente, sem chão. Sim ela faz uso da frase dita por ele dias antes e é assim que ela volta para casa pensando não somente nos dois, mas em tudo que estava envolvido nessa relação até aquele momento; Família, natal, presentes, alianças, fotos, promessas, histórias, planos, brigas, sorrisos.... Chorou como nunca pensou que seria capaz.
Relembrava cada detalhe das frases ditas na semana anterior, é claro, sabia que o fato não fora “resultado apenas daquele resultado”, mas foram nos últimos dias que disseram e ouviram o que estava guardado, trancafiado pela política do bom relacionamento.
O fato de ela ter chego à conclusão de que nascera impar nunca a impediu de ser par, e a única coisa que ela queria naquele momento era expor para a pessoa, aquele que estava a seu lado, sim estava confusa, mas queria uma ajuda, uma mão que a conduzisse neste caminho.
Mas, nossas vidas não são como um seriado americano e quando se diz algo, não espere que leiam as entrelinhas.
Durante a noite uma mensagem a mortificou ainda mais “beijos carinhosos” o que aquilo queria dizer senão: amizade permanece, mas a estória realmente acabou?
Ligações, uma, duas no dia seguintes promessas suspiradas em menos de 24 horas do acontecido.
No segundo dia silencio absoluto, nada de mensagens, nada de ligações um ato impensado, os dedos foram mais rápidos e a fizeram discar aquela seqüência de números que havia sido repetida milhares de vezes anteriormente: “-oi, tudo bem? Estou indo ao shopping comer com um pessoal.”
A frieza com que aquelas palavras foram proferidas, o encontro inevitável que talvez o acaso estivesse preparando fora abortado ao final da ligação.
É de verdade realmente o conto de fadas se desfez o “always and forever” deu espaço ao “eterno enquanto dure”.
Seu bem querer é tão grande que está sofrendo, mas já tratou de colocar na cabeça que assim como fora dito vai ser melhor e principalmente ele já está descobrindo o quão independente da sua “coluna central” ele é, e sempre foi
E dois anos, dois meses, e dois dias depois, eis que a eterna “impar” está de volta com menos brilho, mais marcas, lembranças e dores para serem superadas visto que a outra “metade” desta laranja, a pessoa que a tornara “par” não a libertou da relação e sim (o que havia sido negado inúmeras vezes) se libertou, criou asas e voou.
Joyce Araújo
Escrito por Mulheres no Divã às 06h42
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Marcas que não se apagam As malas no carro representavam o fim de um martírio. Meses sendo amante e seria o fim se ele não tomasse uma atitude logo. Não que ela gostasse da idéia de pressioná-lo, mas a volta pra casa solitária nas sextas-feiras fizeram com que chegasse ao seu limite. O amor era imenso, mas ao mesmo tempo pequeno demais para que pudesse dividir e a idéia de que suas mãos tocassem outro corpo que não o seu, a conturbavam. Era a outra, mas ao mesmo tempo era única. Agora aquelas malas e o travesseiro no banco de trás marcavam o início da história possível e o fim das lágrimas de saudade. Agora eles poderiam ligar quando quisessem, andar de mãos dadas. Agora poderiam sentir o gosto da aprovação e esquecer a culpa que sentiam a cada encontro. No hotel, pela primeira vez ela o viu dormindo. Sentiu a felicidade mais completa que existia. Observou com cuidado cada detalhe de seu rosto. Desejou que aquele momento perdurasse por toda vida. Na verdade, “trocaria a eternidade por aquela noite”. Cobriu o ombro descoberto, se levantou e escolheu a roupa que ele vestiria no dia seguinte: camisa azul, calça preta. Abriu a bolsa e pegou seu batom mais bonito. Foi embora depois de escrever com ele no espelho: Amo você pra sempre... Ele deve ter limpado a frase após lavar o rosto, ou então a camareira o fez depois de admirar a declaração tão simples e sincera. Talvez ele nem se lembre mais disso, mas a marca no espelho continua ali, intacta à memória. E toda vez que o vapor do banheiro se espalhar pelo quarto, aquela mensagem ressurgirá, pois o espelho, assim como a pele, pode esconder uma cicatriz profunda, mas nem mesmo o tempo é capaz de apagar uma história que vivemos e nos entregamos. Há coisas que não sai de nós mesmos porque se soma como pedaços de carne, pedaços de sonhos. E não adianta fugir ou tentar esquecer. O medo um dia vai embora e o que fica é isso, a marca. (Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 07h38
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A verdadeira terapia
Alice era mulher como outra qualquer. Independente, bonita, atraente. Gostava de sair à noite, de dançar, de beber, de fumar. Gostava de dirigir pela cidade, de trabalhar e receber elogios por sua beleza e claro, sua inteligência (que considerava seu melhor atrativo). Mas no fundo, bem no fundo, onde nem ela mesma era capaz de admitir, sonhava mesmo era em se casar, ter uma casa com violetas floridas e filhos educados e amorosos. Alice sonhava, mas em segredo.
Segredo porque já estava cansada de suas frustrações com relacionamentos anteriores, cansada de suas expectativas ideológicas e irreais de encontrar um homem que a entendesse e a completasse. Na verdade, nos últimos tempos ela se convencera de que isso não existia e aproveitava a vida à sua maneira. Ainda era tão nova pra algumas coisas, mas sempre que pensava no futuro, se sentia sem tempo para realizar tanta coisa que planejava. Era como se uma linha do tempo se formasse em sua imaginação e isso a deixava desesperada.
Mas, desesperada mesmo ela ficava quando se via cometendo erros de carência, como inevitavelmente aconteciam vez ou outra. E era sempre a mesma história: no auge de sua solidão, se arrumava, saia, bebia e ficava com alguém. O problema vinha no dia seguinte, ao ter que dizer ao tal carinha que ela já não queria mais. Não gostava de brincar com os sentimentos alheios, mas ainda não estava pronta para se entregar. Estava confusa, fechada pra balanço talvez. Mas ainda assim, Alice odiava se sentir sozinha e então, o mesmo erro prosseguia.
Como não gostava de encarar os fatos, por mais obvios que eles fossem, não procurava ajuda de terapeutas. Imagina! Uma mulher tão auto-suficiente como ela! – pensava.
Ia ao shopping fazer compras. Essa era uma forma tão famosa de esquecer a tristeza!
Nas primeiras aquisições até funcionou, mas depois, ainda que olhasse com muita empolgação para o par de sapatos de couro envernizado novinho que acabara de pagar, não conseguia esquecer seus problemas, ou a falta deles, como o conserto do botão da camisa do marido, a lição de casa do filho, a falta de tempo para o supermercado. Enfim, tudo que via acontecer com as amigas de infância, que já estavam todas casadas e resolvidíssimas enquanto ela ainda se achava uma adolescente.
Isso podia até ser uma carência passageira, afinal, não queria também que sua vida se resumisse ao lar e suas rotinas, mas certamente estava começando a enxergar a vida de forma mais madura e centrada.
Foi aí então que pensou em escrever.
Comprou alguns cadernos para rascunhar, e quando viu já estava na quinta página. Decidiu escrever no computador para agilizar e consequentemente, transformou seus arquivos de word em históricos de uma página gratuita da internet. Assim surgiu sua terapia concreta: textos fictícios ou não que exprimiam seus pensamentos mais ocultos na rede atual mais explícita que existe: os blog’s.
* E ah! Alice resolveu dar tempo ao tempo! Nada melhor que o acaso para lhe trazer ótimas novidades e companhias. Continua no país das maravilhas, mas desta vez, com a exata noção das imperfeições mundanas, alheias e próprias.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 03h17
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Recebi esse texto por uma colega que disse que era a minha cara, faço delas a minha palavra. Não foi eu quem o escreveu, mas poderia....Concordo com cada frase abaixo. E pelo visto, Graças a Deus, não sou a unica.

"Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:
- 'Ah, terminei o casamento... '
- 'Nossa, quanto tempo?'
- 'sete anos... Mas não deu certo... Acabou'
- É não deu...?
Claro que deu!
Deu certo durante sete anos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro.
E não temos esta coisa completa.
Às vezes ele é fiel, mas não é bom de cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é malhada, mas não é sensível.
Tudo nós não temos.
Perceba qual o aspecto que é mais importante e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante... E se o beijo bate... Se jogue...
Senão bate... respire fundo... E vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O ou tro tem o direito de não te querer.
Não lute, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvida, problema dela, cabe a você esperar ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família?
O legal é alguém que está com você por você.
E vice versa.
Não fique com alguém por dó também.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Você muitas vezes vai ter raiva, ciúmes, ódio, frustração.
Faz parte. Você namora outro ser, outro mundo e outro universo.
E nem sempre as coisas saem como você quer...
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal, você não é terapeuta.
Se não quer se envolver namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
E nem todo sexo bom é para namorar.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
Nem todo sexo bom é para descartar. Ou se apaixonar. Ou se culpar."
Violet
Escrito por Mulheres no Divã às 08h48
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Rindo de si mesma ou para si mesma???
Ela se olhou no espelho. Estava gorda, acima do peso. Seu rosto com olheiras nunca antes vistas. Seu rosto com espinhas só vistas na sua primeira fase da adolescência. Seu nariz mais batatinha como jamais fora antes. E os pelos???? Pelos que nunca tivera antes, onde nunca imaginaria que pudesse ter algum dia. Pensou consigo mesma, pra rir de si mesma como ja era de costume: "com estas costeletas podia ganhar uma grana fazendo cover do Elvis!!!".
E riu sozinha de si diante do espelho. Foi tomar banho cansada, morrendo de dor nas pernas. Mal conseguia ficar de pé no chuveiro depois de mais um dia estressante de trabalho. Não ela não trabalhava de pé. Mas tinha que atender o público o dia todo. Velhinhos, gente muito pobre, gente muito rica, gente muito nova, gente muito legal, gente muito chata, mas principalmente gente muito exigente, cheia de direitos, sem nenhum dever...... E aquilo sempre fora meio chato, e agora estava pra lá de cansativo. Mas aí ela pensava: "Não estou carregando carvão numa mina, nem cortando cana de baixo de sol, tá bom até." E ria de si mesma. Mas às vezes sentia falta de ar, ou até um pouco de dor por não conseguir ir ao banheiro sempre que precisava.
Mas voltando ao chuveiro. As pernas doíam, na verdade o pescoço também depois de tanta tensão do dia. Mas nem percebia tanto mais. Olhou para aquele corpinho, que nada tinha de modelo de revista ou atriz de televisão, olhou pra sua barriga saliente, e riu. Estava feliz. E podia dizer pra qualquer um que estava mais feliz do que qualquer uma dessas modelos magérrimas sorridentes de capa de revista.
Sim ela era feliz!
Pensou na sua vida. Nas coisas que queria ter feito e não fez, como todas pessoas pensam. E riu de novo: "se tivesse feito o que queria não teria chegado até este momento". Não era muito velha, mas tinha uma certa sabedoria. Sabia que o que temos, que o que somos, depende do que fizemos. E tudo de ruim que viveu pareceu pequeno, pois sua vida tinha levado ela até este momento.
Jurou pra si mesma seguir os conselhos de seu marido: "Deixe de dar importância pra estas coisas idiotas". E sabia que precisava mesmo fazer isso. Não seria bom agora ter preocupações a toa, ficar ansiosa, passar nervoso, ficar triste. Mas ela não podia mudar sua rotina. Tinha então que mudar a forma que enxergava tudo isso. E jurou que dessa vez mudaria.
Mas dessa vez jurou em voz alta, não foi só em pensamento. Olhou de novo pra sua barriga já meio desengonçada, para o seu umbigo querendo sair pra fora. E disse em alto e bom som, pra que ela pudesse ouvir: "prometo ser uma pessoa melhor pra você!".
Pensou no mundo. Ficou com medo. Pensou nas pessoas que amava. Sentiu consolo. Pensou em si pequenina, com medo de ficar sozinha, com medo de dormir no claro (sim ela era diferente desde pequenininha). Pensou em como seria aquela pessoinha. E pensou: "Como a gente pode amar tanto alguém que a gente nem sabe como é?".
E de novo riu de si mesma. E pensou no quanto era feliz de verdade.
Manuela Araujo Toda
Escrito por Mulheres no Divã às 10h58
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O gosto que ficou
- Vai para o inferno! – disse ela, saindo do carro no farol vermelho, atravessando a rua pisando fundo.
Ele arrancou com o carro, cantando os pneus.
As lágrimas escorriam pela face furiosa e maquiada. O coração parecia pular pela boca, as pernas tremiam. Ele era um homem horrível, ela o odiava naquele momento. Mas também era o homem mais lindo que já vira, o amor da sua vida. O contraste entre os sentimentos a deixava tão confusa que o oxigênio mal conseguia chegar ao seu cérebro. Por sorte não desmaiou pelas calçadas que apareciam em sua frente instantaneamente.
Mais uma vez se sentia fraca, imatura, culpada.
Sempre as mesmas brigas, as inúmeras discussões, as críticas, a impotência diante das atitudes tão previsíveis dele. O caminho de volta pra casa já não era mais doce como antes e isso a entristecia.
Decidiu ligar. Queria consertar os erros, terminar a história de forma que não se arrependesse ao se deitar na cama. Após muitas tentativas ele atendeu:
- O que você quer?
- Onde você está?
- No inferno! Não foi pra lá que você me mandou ir?
“Seria engraçado se não fosse trágico”, pensou.
- Volta!
E assim se fez. Ora choro, ora sorriso. Ora ódio, ora amor.
Assim se fez o céu, mas também assim se construiu o inferno. O fictício, o real.
E assim nos perdemos.
O adeus jamais existiu, assim como um sim ou um não. As paredes é que não saíram do lugar.
De tudo, somente as fotos.
E o gosto que ficou, somente eu sei. Ou quem sabe, somente nós dois sabemos.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 03h47
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Barbie e Betina ou Barbie Betina?

Betina é uma mulher, uma moça, uma menina.
Betina é aquela que tem medo do que ela mesma pode causar.
Sabe dos seus poderes e talvez nem goste de usá-los sempre. Ela estava gostando de ser comum, de ter problemas humanos, de chorar após a briga com o namorado, de sofrer com a cólica menstrual, gostava de tentar descobrir que presentes iriam lhe dar.
Saber o que pensavam a desiludia. Arquitetar o encontro e a briga não era mais legal. Ela definitivamente não queria mais aquele poder. Não queria visões, não queria não sentir nada.
Ela queria ter uma data de nascimento, queria ter um animal de estimação, queria ir ao médico apenas para ele dizer que sua pressão estava normal.
Betina queria se esconder porque estava cansada de quebrar carros, de ter uma força sobre humana e de capturar sentimentos e pessoas que nem sempre lhe pertenciam.
Ela ficava cansada só de pensar em montar aquela casinha perfeita onde tudo tinha seu lugar.
Ao afundá-la na água da banheira rosa, seu cabelo não era mais o mesmo, na verdade nem aquilo era um cabelo e mesmo o cortando, até que aquele novo visual a atraiu. Quando olhou para o lado, o Ken estava com a Suzy e ela não era mais a boneca preferida.
Bem vinda ao mundo real!
Agora nem o nome ela tinha mais, era novamente apenas uma Barbie.
Uma Barbie mais velha, uma Barbie que provavelmente seria doada na próxima limpa do quarto de Betina.
E assim muitas Betinas cresceram ao perceber que até as Barbies queriam ser humanas, até as fadas queriam parar de voar e até ela não queria mais brincar de boneca.
Rebecca Araujo
Toda menina que enjoa da boneca é sinal de que o amor já chegou no coração...
Xote das Meninas (Zé Dantas, Luiz Gonzaga)
Escrito por Mulheres no Divã às 07h28
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Quando é amor?
Marina ouviu a notícia hoje pela manhã e algo ecoou mais do que um simples pedido de ajuda ou de requerimento de um ombro amigo.Ela novamente se via frente ao espelho.Na verdade parecia que alguém voltava e esfregava em sua cara o sentimento de incerteza que vivia.Não podia dizer que era infeliz, porque de fato ninguém é obrigado a ficar com quem não se queira e muito menos quando nunca para isso fora obrigada.Poderia sim estar “acorrentada” simbolicamente, mas de fato ele nunca a ameaçara tampouco a cobrou por seus sentimentos.
Marina pensou por tantas vezes que ser altruísta naquele momento não lhe favorecia, ao contrário dava munição ao oponente, que não parecia duelar, mas sim era companheiro de jogo.Ela sabia que ser egoísta naquele momento não seria algo ruim, ao menos não para ela.Abdicar da sua escolha? Ela não sabia, pois de fato não estava tão certa do que viria escolher. Ficar com ele ou sem ele? O que iria doer mais?
A saudade do que passou ou saudade do que viria?Nem ela sabia, mas saber simplesmente que um dia ele a esqueceria era temeroso.E se outros lábios colassem no dele que não os dela?Nem queria pensar.Mas de fato algo incomodava, como saber se de fato que o amava?Sabia que não podia mensurar e diziam-na que ela saberia quando fosse amor, mas nunca lhe disseram que saberia quando já não fosse mais.
Camila Bombonato
Escrito por Mulheres no Divã às 05h08
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E que todos percam o fôlego...

Assistindo à Hitch O Conselheiro Amoroso constatei que de fato não existem princípios básicos para o amor.
Tudo sempre sai errado em um encontro, ou porque sua expectativa está acima da média (o que é muito comum) ou porque nos esquecemos que a vida não é um filme com falas ensaiadas e com um tempo exato para terminar.
Normalmente ficaremos com alface no dente ou sem fala após uma pergunta. Pode ser que a gente tropece ao tentar andar de uma maneira diferente e sempre a música do primeiro beijo (se houver) será uma que nada tem a ver com o momento.
Normalmente vamos encontrar a pessoa de nossa vida (se é que isto existe) quando estivermos desarrumadas, com bafo de cebola ou no momento inapropriado.
A verdade é que o amor não tem regras.
Confesso que há um charme naqueles joguinhos dos sexos envolvido no início de qualquer relacionamento. Mas nada que dure sempre...
Normalmente após esse “tempo” inicial acabamos demonstrando quem somos, nossos medos, carências e conseqüentemente nossas qualidades.
E só assim podemos identificar aquela pessoa que nos fará feliz.
Aquela que nos irrita e nos diverte com seus defeitos, aquela que aperta a pasta de dente no meio, mas que tem um sorriso que talvez nem viajando o mundo inteiro ou indo à associações de dentistas você encontre.
Conselheiros existem aos montes, mas apenas você poderá reconhecer quem te fará bem, aquela pessoa IDEAL, e pode acreditar que esta não chegará no cavalo branco e nem com um ramalhete de flores no primeiro encontro.
Mas será alguém que como diz o filme conseguirá tirar seu fôlego.
Cá entre nós, bem melhor ser a Fiona do que a Bela Adormecida. Bem melhor ser a Emília que a Narizinho.
Bem melhor assumir que se é humano.
Rebecca Araujo

Escrito por Mulheres no Divã às 12h24
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Engano

Um leve engano foi esse o pensamento de Nívea quando Mateus lhe disse coisas tão banais, mas que fizeram com as suas certezas (desconfianças) escorressem pelos dedos naquela noite.Ela pensara que bobeira era aquela de duvidar dele bem naquele exato momento.Está certo que não o conhecia a muito tempo, mas o suficiente para que Nívea soubesse que Mateus tinha algo que lhe inspirava confiança e que mereceria dela um esforço para que uma relação ali existisse.
E é isso que às vezes frustrava Nívea, as constantes investidas, comentários e iniciativas que ela tomava, quando Mateus parecia estar mais preocupado em rever a sua vida, os seus conceitos voltando-se para os seus pensamentos e perdendo por inúmeras vezes o momento certo de pegar as mãos de Nívea.
Nívea pensava que não era possível que Mateus tivesse ora timidez demais, se por muitas vezes parecia ter fluência e confiança demais em que dizia e fazia.Será que estaria ele desinteressado? Ou será que isso era só fantasia de Nívea? Ela oscilava entre seus pensamentos e ora preferia crer que de fato algo ali existia e que ultrapaza a amizade, ora pensava que na verdade ele gostava de sua companhia, de contar os seus casos e pensamentos e que encontrava ali espaço para compartilhar com ela essas idéias que tanto martelavam em sua cabeça, mas Nívea não estava certo se era isso que queria.As duas coisas.Não queria ser apenas mais uma amiga e se conformar em sentar noites de domingos com ele a mesa, pedir uma pizza e conversar sobre as banalidades da vida, ainda sim que isso lhe agradasse.Tampouco estava certa que deveria tomar partido de algo mais sério, assumir um compromisso.
Nívea pensava em algo mais profundo, de pertencimento.Questionava-se naquela noite que diabos fazia ali?Tão incerta do que queria, já não sabia o que fazia.
Como podia Nívea que se via como tão segura estar incerta naquele momento e pior do que essa insegurança era incerteza do que dali pra frente viria.Isso misturou com um sentimento de impotência.Nívea pensou por algumas vezes em virar para Mateus e lhe dirigir com a maior normalidade (que ainda possa ter) e num só golpe perguntar “Qual é a sua?”, mas pensou que não teria como questionar isso diretivamente, pois bem sabe que em seguida da resposta (se chegasse) viria um diretivo incisivo de Mateus questionando “E você?”. Boa pergunta! Nem ela sabia, ou talvez soubesse no fundo, mas não se sentisse na condição de assumir seu desejo, pois ele parecia ainda tão dependente da resposta de Mateus.Nívea começava a temer uma dependência, afinal por quantas vezes o seu desejo esteve submetido à opinião alheia.Nunca, de fato ele poderia no máximo ser revelado de acordo com a opinião alheia, pois bem algumas vezes fora necessário disfarçar, esconder o que se sentia para evitar o sofrimento.Que boba!Ela mal sabia que o sofrimento viria em outra forma: o da renuncia.E renunciar bem sabia Nívea que não era saudável, ela até aceitava perder, não obter, mas desistir aí seria demais.
Desconversou naquela noite e Mateus percebendo o seu jeito questionou a sua estranheza e lhe perguntou o que havia acontecido.Nívea naquele momento teve a oportunidade de revelar tudo isso que habitava sua mente, mas não o fez.Apenas encarou-lhe com um olho no olho , que parece ter lhe constrangido e que buscava por ali retirar respostas para sua inúmeras perguntas.Desistiu, resolveu se calar, como ele mesmo havia lhe dito “Se não quiser falar, tudo bem”, mas que mais tarde em outro momento viria ele novamente questionar.
Nívea não se conformava, como poderia ela condicionar os seus desejos e pior a sua fala em detrenimento do outro, foi quando se lembro do que Mateus por inúmeras vezes lhe disse: “É o apego que gera sofrimento”.Mas pior ainda pensava Nívea, "Como não se apegar?" Era essa a mais nova tentativa de Nívea para compreender Mateus.Ele deveria não querer se apegar, mas estaria ele nessa vida à passeio?
Nívea novamente desistiu e resolveu ir dormir, ainda que esses pensamentos lhe martelassem a noite inteira.Suspendeu seus pensamento, pelos menos por ora, afinal fora bastante àquela noite, entre acertos e desacertos as suas fantasias pareciam criar mais enganos, pelo menos por enquanto...
Camila Bombonato
Escrito por Mulheres no Divã às 11h25
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“Produto indicado só para adultos" Vocês prestaram atenção na frase que está encerrando os comerciais de bebidas? Pois é só pra adultos..mas quando a gente sabe que é adulto? Essa linha de transição de fases é tênue. Para a lei aos dezoito. Para quem sofre com os despautérios da nossa lei, talvez aos 13...14 Para as mães, nunca. Acho que isso acontece quando a gente repara que daríamos tudo de volta para recolocar os uniformes enormes e voltar a odiá-los. A gente nasce, cresce, vai a escola, se forma, cursa a faculdade se forma (ou talvez não) e ai? O que acontece? Espera um momento, me contaram que quando eu tivesse meus vinte e poucos anos minha vida estaria resolvida...Será? Doce Ilusão. Alguem aqui é o que você planejou para si mesmo quando estava na quinta serie? Duvido! E acho que isso que é intrigante, muitas vezes destrutivo, mas também parte desse lance de se tornar gente grande. Entre Backstreet boys, Spice girls e Leonardos de Caprio eu achava que quando eu virasse “adulta” eu estaria numa revista cobrindo eventos da musica, ou talvez indo para uma cobertura de guerra, seria totalmente independente e talvez morasse sozinha, ou com minhas amigas naqueles apartamentos imeeeeeeensos com uma sala para musica, uma cachorra que chamasse VAKA e festas todos os dias. E nos fins de semana viagens. Engraçado pensar assim, porque seguindo esse pensamento eu poderia me achar uma fracassada. Confesso que isso paira sobre meus devaneios, mas ai é o momento que eu paro e penso. – Caramba! Como eu estou velha! Velha e chata! Tenho meu carro, estou num emprego idealizado por muitos, ganho bem para a minha idade, tenho um namorado que me ama, minha família que me apóia e acima de tudo me suporta e amigos que são capazes de me surpreender a cada dia e me fazem sentir a melhor pessoa do mundo. Sim, de certa forma eu sou aquela “adulta” que achava que iria ser no ensino fundamental. E mesmo assim ainda estou em tempo de ser. Acho que nunca vou saber me encaixar nessas chamadas “fases da vida”, sei que não sou mais a garota que andava sem rumo pelas ruas da zona norte, nem a fanática por Howie D, mas estou aprendendo a seguir o curso natural das coisas e assumir que o que eu sou hoje não é fruto do acaso, foi o caminho que eu trilhei. Mas isso não significa que os trilhos necessariamente estão em rumo reto ou uma linha reta. Sei não em que destino vou chegar, mas estou tentando aproveitar mais essa viagem. Joyce Araújo
Escrito por Mulheres no Divã às 20h58
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Faça sua história

Eu sempre insisto em dizer que não existem príncipes e princesas. Mas depois que Walt Disney chegou e mudou a maioria das histórias fica mesmo difícil não querermos ser a bela moça que depois de certo sofrimento, é feliz para sempre ao lado de seu par.
O problema é que vivemos no impasse de sermos princesas ou heroínas esquecendo que podemos ser a Érica, a Camila, a Rebecca, a Joyce e tantas outras.
Não quero ficar enclausurada no castelo como a Cinderela e nem enfrentar a Guerra dos Farrapos como Anita Garibaldi.
Quero ser um misto de medo e coragem, de sensibilidade e insensibilidade, quero ser eu sem cópias, quero ser eu sem que qualquer semelhança com a realidade seja mera coincidência.
Encontramos nos contos, livros, séries e novelas uma parte do que queremos ser. A outra, aquela que grita dentro de nós e muitas vezes é negada é o que nos torna verdadeiras protagonistas de uma história bem mais interessante, sem legendas, censura, aquela que não é apenas uma cópia genérica do que alguém escreveu...
Rebecca Araujo
Escrito por Mulheres no Divã às 08h23
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"Futebol é coisa para homem"

Quem nunca ouviu essa frase? Nos últimos tempos ela ganha cada vez mais novos adeptos. Os mais conservadores resistem em aceitar mulheres de chuteira correndo atrás de uma bola. Mas é inevitável, elas estão conquistando seu espaço. Seja ele como árbitra, comentarista, repórter, bandeirinha, ou mesmo nas arquibancadas, não importa como, elas estão cada vez mais presentes. Nada mais justo, afinal, não somos o país do futebol?
Nelson Rodrigues analisava um clube, uma partida através do seu destaque. Suas crônicas sempre tinham um personagem principal. Falemos então de Marta, canhotinha habilidosa, eleita por duas vezes seguida a melhor jogadora de futebol do Mundo e principal responsável pela quebra desse tabu que há anos toma conta do esporte.
Aos 18 anos, a camisa 10 saiu de Recife onde atuava pelo Santa Cruz e foi tentar a sorte na Suécia. Sozinha, sem o apoio dos familiares, sem entender o idioma e sob um frio rigoroso, Marta brilhou. Logo em seu primeiro ano foi um dos destaques de seu clube e comandou a seleção brasileira a inédita medalha de prata olímpica e no final do ano foi eleita a terceira melhor jogadora de futebol do mundo, atrás apenas da americana Mia Ham, uma espécie de precursora do futebol feminino, e da alemã Birgit Frings, sua sucessora. No ano seguinte, novamente as três na disputa, dessa vez com Marta em segundo lugar.
Em todas as eleições de melhor jogadora do mundo pela Fifa o prêmio foi conquistado ou pela americana ou pela alemã. Reconhecimento do futebol técnico e da força demonstrada pelas duas atletas. Mas em 2006 a habilidade, enfim, foi premiada. Marta, então com 20 anos, sobe ao palco da solenidade da Fifa, na Suíça, e como uma menina chora de emoção. Talvez, lembrando da infância sofrida, da falta de apoio dos familiares que não achava certo uma menina jogando futebol, do frio e da solidão na terra desconhecida, do descaso das autoridades e clubes do seu país.
No ano passado, na final do Pan-americano, Marta e suas companheiras realizaram o sonho que toda criança apaixonada deve ter tido em sua infância: jogou no Maracanã. E Não foi só isso. Jogaram no maior do mundo para um público de mais de 70 mil pessoas, que cantavam o orgulho de ser brasileiro a plenos pulmões. Orgulho esse que foi perdendo força com a falta de comprometimento dos homens com a camisa canarinho.
Na partida contra as norte-americanas, show brasileiro para ninguém botar defeito. Regido pela maestra Marta a seleção goleou de forma incontestável: 5 a 0. Depois da conquista, ainda no gramado, festa merecida para as brasileiras. Surge então, com sua leveza inconfundível, a vossa realeza. Como uma menina, Marta coloca um par de asas nas costas e, com lágrimas nos olhos, brinca, pula e se diverte com as companheiras. 70 mil brasileiros aplaudem de pé aquela seleção que devolveria um pouco do orgulho de torcer, talvez por em sua essência ter o sofrimento, as dificuldades, os problemas de cada um de nós brasileiros. Porém, em meio às adversidades, essas meninas mostraram sua garra, sua paixão pelo esporte bretão e, sobretudo, talento raro de se ver.
A graça, a leveza do futebol brasileiro estava de volta nos dribles de Martas; nas arrancadas fulminantes de Cristiane; nos chutaços de Renata Alves; na experiência de Formiga. Enfim, continuamos a ser, para alegria de Nelson Rodrigues, a Pátria em chuteiras. Mas dessa vez, os pés que calçam essas chuteiras são delicados. O futebol arte brasileiro renasce no palco que consagrou os maiores artistas que esse país já viu. De Pelé a Zico, todos reverenciam essas meninas, e, principalmente, sua estrela maior. O rei do futebol chegou a afirmar que Marta era “o Pelé de saias”.
Meses depois a seleção foi à China disputar o Mundial. Dessa vez com um tempero especial: a torcida de milhões de brasileiros que ainda estavam surpresos com o futebol apresentado por essas garotas. Nas primeiras fases o Brasil avança com certa facilidade pelas adversárias, inclusive, pelas donas da casa e candidata ao título. Mas o melhor ainda estava por vir. Nas semifinais, no dia 27 de setembro, contra os Estados Unidos, talvez a principal favorita ao título, o Brasil não tomou conhecimento das adversárias. Um inesquecível 4 a 0 foi placar da partida. Marta só não fez chover naquela partida. No pós jogo, aqui no Brasil, todas as mesas redondas de futebol mostravam as lances da pequena notável. Os comentaristas a comparavam com Zidane em um lance. No seguinte, lembravam de Mané Garrincha. Marta é desses atletas completos, que faz de tudo e com inexplicável perfeição.
Marta é desses gênios que inexplicavelmente aparecem no esporte brasileiro. Quem imaginava que no meio da seca, no sertão de Alagoas, surgiria uma garota franzina com uma habilidade de deixar o rei do futebol de queixo caído? E mais: Jamais passou pela cabeça de qualquer brasileiro que essa garota, num país totalmente machista quando o assunto é futebol, sem respaldo algum das autoridades competentes, conquistaria o mundo. Marta é brasileira em sua essência, em sua história de vida. História de luta, garra e persistência. Não, esse não é mais um discurso ufanista. E, sim , um reconhecimento do Brasil que dá certo.
Para a coroação da menina guerreira número um do Brasil, só mesmo uma final de Copa do Mundo. Na manhã do domingo 30 de setembro, o Brasil parou para torcer por suas meninas. Algo mágico acontece nesses manhas dominicais. Novamente o brasileiro frente à TV para ver a consagração de um ídolo. Dessa vez, uma menina franzina, apenas um 1,60m, mas com um talento de gente grande. Começa o jogo e, como já era de se esperar, Marta é implacavelmente marcada. Para qualquer passo que a brasileira dava em campo, duas alemãs a acompanhava.
Logo no início da etapa final, a eficiente Prinz aproveita um rebote na entrada da área e abre o placar para as alemãs. O Brasil sente o gol e fica perdido em campo. Mas num lance individual, Cristiane é derrubada na área. Pênalti para o Brasil. Na cobrança, Marta tem as chances de se firmar no hall dos craques brasileiros. Mas quem disse que craque não erra? Assim como Zico, Sócrates, Baggio, Zidane, dentre outras feras, Marta perde o pênalti e com ele a chance de dar o título inédito para o Brasil. Com a perda da cobrança, a seleção que já estava mal em campo, se perdeu completamente e ainda viu Laudehr marcar e dar o bicampeonato para as alemãs.
As meninas do Brasil caem no gramado como derrotadas nessa batalha. Mas do outro lado do mundo, os brasileiros presentes nas arquibancadas fazem questão de mostrar que nessa guerra não há derrotadas. Muito pelo contrário. A seleção brasileira já saiu daqui do Brasil para o Mundial como vitoriosa, verdadeira campeã. Algumas das atletas conseguiram sair do Brasil e buscar espaço no mercado internacional, mas sua maioria ainda jogava aqui, não desistia do sonho de ser atleta profissional, mesmo sem o apoio da CBF, que prefere investir milhões no futebol masculino. Essas heroínas jogaram apenas por amor ao seu país e para dar um cala a boca nos machistas de plantão.
Temos por natureza o dom de desmerecer o vice campeonato. Frases como “o vice é o primeiro dos últimos” são bordões previamente colocados e algumas façanhas de nossos esportistas acabam passando em branco. Pois bem, podemos, e devemos, reconhecer o trabalho dessas meninas, não só pelo feito, mas, principalmente, pelo bom futebol apresentado. Agora, imagine essa seleção com apoio da CBF, essas meninas disputando campeonatos de clubes no país, afinal, a única coisa que elas pedem é isso: profissionalismo. Será que é muito?
Ainda no ano passado, nas vésperas do clássico Corinthians e São Paulo pelo returno do Brasileirão, Em meio à dramática campanha corintiana na competição, que culminou com o rebaixamento da equipe, Marta revelou ao Lance! ser torcedora do clube e que tinha o sonho de jogar um dia pelo seu clube do coração. Agora, pergunto eu, qual o torcedor corintiano que em meio aquele festival de pernas-de-pau que o time exibiu no ano passado não sonhava em ver a alagoana com a camisa 10 do clube? Imagine ela no lugar do Aílton com a 10 do time.
Para encerrar com chave de ouro seu ano brilhante, Marta foi novamente à Suíça receber o prêmio de melhor do mundo. Ao seu lado, Kaká também recebeu o prêmio. Mas diferentemente das últimas idas a solenidade, a alagoana não é mais uma mera coadjuvante, passa a ter seu espaço, a ser reconhecida mundialmente. Graças a seus dribles, arrancadas e gols que tanto nos encanta. Marta pôs fim a uma das frases mais antigas e infelizes da história do futebol. Seria o futebol um esporte apenas para os homens mesmo? Esse ano temos Olimpíada, quem sabe nossas meninas não trazem o tão aguardado ouro no futebol. Tomara!
(Danilo Neves)
“A Fifa deveria decretar que o dia 27 de setembro passa a ser o Dia de Marta.
Porque Marta não se marca.
Marta mata a bola como o quê.
Marta mete a bola onde quer.
Marta martela quem corre atrás dela.
Marta mistura Pelé e Mané.
Na Terra não há quem jogue como ela.
Dona Marta, Marta dona de talento sem igual.
Marta de Marte, a Marta é de morte, genial”.
(Juca Kfouri)
Escrito por Mulheres no Divã às 01h05
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Um dia

Um dia eu vou ser livre.Um dia vou fazer tudo o que tenho vontade.Um dia vou esquecer ele. O tempo cura tudo, cura a dor do amor, cura a vontade de se casar com aquele cara. Mania de adiar a dor, mania de acreditar no romantismo, de que o principe do cavalo branco que todas sonhamos irá chegar. Na verdade ele já chegou, tantas vezes para algumas e apenas uma para outras. Mas foi embora do jeito que chegou, deixou triste do mesmo jeito que deixou feliz.Mas sabe um dia isso irá mudar também. Num dia fomos escravas, ainda recebemos menos do que devemos, sofremos pelo machismo que existe na propria libertade que criamos e queremos a libertade.Mais que isso queremos ser compreendidas com seres humanos, apenas isso, iguais os outros tantos que vivem por ai.Quero ter sonhos, quero casar de branco na igreja, quero ser mãe, quero ser uma otima profissional, quero mudar o mundo com os meus atos, quero lavar roupa incluindo cuecas. Quero ser apenas uma mulher, com amores que uma mulher tem. Por que isso fica tão dificil? Porque tenho que ser controlada, porque tenho que ter atitudes que outras pessoas dizem que tenho que ter. Porque tenho que sentar com as pernas fechadas? Porque não posso fazer uma piada infame? Nem posso falar palavrão.Duplipensar mais complexo do que o proprio complexo.Ser mulher é bem simples, nascemos mulheres e pronto. O que complica é um dia somos criança no outro passamos a ser mulheres.
Mas um dia isso irá mudar, irá mudar dentro de cada uma que tem essas aflições.
Um dia...
Naiara Abrahão
Escrito por Mulheres no Divã às 13h59
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Verdadeiras Princesas

Eu ocidental
Você oriental
Mulheres...
Sonhos iguais, vidas diversas
Aqui também havia desrespeito e sofríamos com o machismo velado...
Com o descaso porque não tínhamos o último silicone e uma bunda sem celulites...
O cérebro era um apetrecho que o mundo ocidental fez questão de desprezar...
Podíamos trabalhar, mas ainda que tivéssemos a mesma competência nosso suor era inferior ao dos homens...
Podíamos dançar, flertar, sorrir e beber, mas bastava virar a esquina e adjetivos vulgares e chinfris nos coroavam...
A mulher certa era aquela que pudesse se manter o maior tempo calada e fosse antes que tudo bela...
Não tínhamos burca, mas convivíamos com a dura percepção de que não passávamos de comida para os bárbaros...
A terra dos índios era alegre e feliz, povoada também por homens de bem...
Aqueles que valorizavam, compreendiam e nos motivavam...
Mas bastava uma agressão física e o questionamento mundano:
O que será que ela fez para ele?
E ainda usavam a velha frase:
Esta não foi feita para casar
A libertinagem era escancarada e enquanto homens se vangloriavam do tamanho do seu falo e de quantas penetrações eram capazes de fazer em apenas uma noite
Nossos sonhos eram quebrantados...
A metamorfose também era de certa forma esperada do lado de cá...
Porque aqui os filhos continuavam sendo apenas da mãe...
A religião mudava, mas para os cristãos a maioria não passava de Evas...
Padrões anormais e apenas uma fuga: a imoralidade
Para os homens conquistas, para as mulheres remissa
Quem sabe amanhã né?
Também acreditava que um dia deixaríamos de ser lagartos e passaríamos a borboletas...
Princesa, plebéia, no morro, no palácio, resumidas a sexo frágil...
Se a teoria do caos estava certa, atitudes de verdadeira nobreza como a sua ajudaria todas nós a sermos a princesa que verdadeiramente sonhamos...
Mulheres Brasileiras, sem burca, sem véu e ainda sem a devida valorização
Rebecca Araujo
Texto após leitura da Trilogia da Princesa, composta pelos livros "Princesa - a real história da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus", "As filhas da Princesa" e "Princesa Sultana - sua vida, sua luta" que foram escritos pela autora americana Jean Sasson após relatos de uma princesa da Arábia Saudita revoltada com a cultura machista de seu povo.
Escrito por Mulheres no Divã às 14h04
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Desejos

Cansei das verdades duras, aquelas que nos entregam de bandeja e a duras penas...
Cansei das responsabilidades, dos amores confusos, das carências perturbadoras, das mentiras desnecessárias.
A partir de hoje prometi pra mim mesmo que viverei de conselhos insensatos, de verdades não tão duras, de ilusões...
E se isso resolve? Não, e quem disse que preciso resolver?Ah! Lembrei o meu analista!
Como é duro deitar-me toda semana naquele divã que muitas vezes parece me o banco de um tribunal onde o acusado sou eu.
Acusam-me do quê?Do crime mais perigoso e de maior ameaça à humanidade: O desejo!
Acusam-me de desejar mais do que realmente dou conta de realizar
Acusam-me de viver sonhos, fantasias e muitas vezes neles permanecer.
Acusam-me de que por barganha nenhuma os trarei para a realidade.
Ah! Manifestei-me: “Datavenia!”.
Sabe porque esse desejo, ou esses vários desejos que me compõem permanecem na esfera da fantasia?
Por que é gostoso, não que eu seja sádico, ainda que inegável que todos nós temos um pouco de felicidade na desgraça alheia.
Mas sim, por mais irreal que isso seja, fantasiar, sonhar é bem possível e um alento pra certos momentos, onde a realidade
que julgamos é dura demais.
Sabe o que me veio à mente? Que se for condenado, será o começo de uma guerra, afinal quem nunca foi ou é o desejo de alguém?
Quem ironicamente também não desejou algo ou alguém a ponto de tornar esse platonismo o mais perfeito dos relacionamentos.
Amar é bom, mas se houver reciprocidade, é o que sempre digo!Porque amor não correspondido dói.Dói nas duas pontas,
de quem ama demais e de quem ama de menos...Em qual você quer ficar? Nem sempre decidimos, mas em geral submetemos-nos
a certos relacionamentos simplesmente para não ter que experimentar a dor de uma das partes.
É aquele velho trato, um entra com o pé e o outro nós já sabemos com que...
Por isso reitero, quem é capaz de condenar alguém que prefere “estacionar-se” na fantasia?
Quem sabe o tráfego na via da realidade esteja intenso demais.E se não houver placas pra te guiar?
É, uma paradinha é boa, é o tempo pra parar para pensar, olhar no guia e escolher o melhor caminho.
A rota pode ser mais curta, ou a mais conhecida, mas que é preciso voltar pra casa isso é fato.
A realidade, ainda que funcione como castradora, é o seu espaço de vivência, é aqui que percebemos
o quanto nosso outro mundo (o interno) é acolhedor, quentinho, é um regresso para a oportunidade de volta para o progresso,
mas cá entre nós, ainda que dentro da gente suportemos mais, angustiamos na mesma proporção ainda que mágico, lá dentro nem sempre é acolhedor, afinal quem nunca teve medo de seus próprios desejos?
Camila Bombonato
Escrito por Mulheres no Divã às 05h53
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O que te falta?

Já pensou na sua falta de hoje? Aquela que ironicamente te sobra.
É a falta que na verdade não falta, é ela que se torna por muitas vezes
a responsável pela escolha da profissão, pela escolha do amor, pela
escolha da balada de sábado a noite... É ela que não falta, ainda que
no momento de maior falta.
Mas como saber o que de fato falta?Ainda que se sinta, se queira,
tente traduzir ou explicar em palavras, muitas vezes essa falta só existe
e não de fato consiste.
É por estar tão dentro da gente e por parecer tão impossível de tangir,
de apalpar de forma concreta, que a falta, na verdade que não nos falta,
se torna a enfermidade da alma.É quem toma as rédeas das escolhas e que por isso parece
nos levar num frenesi, sem controle e que por inúmeras vezes (ah, quantas!) nos frustra,
porque buscamos fora algo que não consiste e apenas existe dentro da gente.
Se falo de fantasia, desejo, pode ser...ou não!
E por um momento, seja fora ou dentro culpamos o outro; é ele o responsável
pelo que de fato nos falta; Absurdo? Nem tanto assim, é o que o ego suporta!
Se isso faz sentido? Já se perguntou isso hoje? Afinal como explicar que falta algo
naquela pessoa maravilhosa, linda, cheirosa, bem humorada e que abarca grande
parte das qualidades que ocupavam espaço no seu diário
com o título de “A pessoa perfeita deve ser...” ?.Aí naquele papo de sexta-feira
a noite com os amigos, surge a tão perturbadora e aliviante frase:
“A pessoa é isso, aquilo, mas ainda sim falta alguma coisa nela!”
Sempre falta!Há quem diga que não... Te atreves?
Camila Bombonato
Escrito por Mulheres no Divã às 10h57
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As assistentes de Deus
O corpo dela mudou. Os seios aumentaram, a barriga cresceu, a cintura se foi.
As compras não são mais pra ela, mas não se entristece por isso.
Sofre uma dor sem igual, mas quando escorrem lágrimas são de felicidade.
E então pode ver a pele branca e de tão novinha toda enrugada. Os dedos tão pequenos que dá medo de pegar, assim como todo frágil corpo. O som gostoso da gargalhada e o choro preocupante.
A sensação de que nasceu com o único intuito de viver aquela fase, aqueles dias.
Ser mãe.
Gerar por 9 meses um pedaço dela mesma misturado com parte da pessoa que ama. Gerar a vida em sua própria. Ser importante, vital, única.
Ver em outro corpo a cor dos seus olhos, o risco da sobrancelha igualzinho o dele. Poder planejar a busca na escola, os churrascos de domingo.
Certamente a melhor coisa que sentiu. Mas, era tudo tão novo: a casa, o casamento, a filha. E ainda assim, mantinha a independência.
Ser mulher.
Ser milhares de pessoas em uma só. Idealizar, seguir, insistir.
Tudo o que faz a diferença no sexo frágil. A delicadeza e a força, a suavidade e a correção.
A arte de reproduzir, a arte de dar continuidade aos sonhos, ao mundo.
E pensar que tudo faz parte de um projeto. E dele "se faz o céu".
Para que um dia ouçamos a alegria e a fertilidade bater à nossa porta sem nos preocupar com a violência, com as drogas ou qualquer outro tipo de insônia tão frequente, é bom já começarmos a sentir tudo isso.
Uma declaração de amor. Uma utopia real.
Uma luta e uma lembrança.
Ser sensível e se permitir a empatia, pois são elas que nos iluminam e nos dão o ar que respiramos.
Valiosas mulheres que nos colocam no colo quando nos sentimos sozinhas e nos apóiam quando o resto do mundo vira as costas.
Valiosas mulheres que entendem nossos olhos cheios de vontade de chorar porque o amor da nossa vida foi embora ou porque passamos no vestibular.
Valiosas e fabulosas porque existem na coragem e nunca nos deixam desistir ou desanimar.
Mães, aquelas que existem porque Deus precisava de assistentes.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 06h02
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Eu como filha digo:

Eu como filha digo que sou suspeita para falar do dia das Mães, porque acho uma chatice aqueles milhares de flores e aquele montão de gente que trata a mãe mal o ano inteiro e no segundo domingo de maio na maior cara deslavada vai almoçar na casa da genitora e ainda reclama que a carne está sem sal.
Mas como normalmente esquecemos de ressaltar a importância das figuras essenciais de nossa vida, decidi escrever e indiretamente ajudar este capitalismo selvagem...rs
Particularmente tinha uma mãe muito dedicada e que cedo abdicou de sua vida profissional para cuidar de mim e da minha irmã 5 anos mais velha.
Mais que educação, respeito ao próximo e amor próprio, minha mãe é alguém que sempre guardarei com uma imagem de inteligência e alegria. Ora com livros, ora com pinturas e toda criatividade artística que lhe é muito peculiar.
Sua capacidade de ser livre de preconceitos, de tentar enxergar o mundo da forma mais básica e de respeitar nossas decisões, ainda que ela as ache um barco furado chega a soar até heróico para uma mãe que no fundo é como a maioria das mães: superprotetora.
Neste domingo e naquela infinitude e variedade de flores eu poderia comparar as mães rosas, mães cravos e as mães que não poderíamos denominar como flores.
Mas mesmo diante do caos continuo a crer que não exista amor tão singelo e sem segundas intenções. E talvez esta deva ser a parte mais gratificante do amor materno:
Amar por amar.
Por isto, nada de abusar das mães ou querer que elas sejam mulheres maravilhas. Lembremos que as mães, aquelas que esquecemos que tem vida sexual ativa, que choram por amor, estas também possuem anseios e dúvidas como qualquer mulher.
A diferença é que há um enorme esforço para que sejamos a parte boa delas e talvez por isto o amor tenha este peso imensurável quando se fala em maternidade.
Na verdade, tudo são teorias, leituras e impressões que tenho com as mães que entrevistei e convivo.
Por enquanto do lado de cá, de apenas filha, sou meio Mafalda e reconheço que elas também são chatinhas ao sempre perguntarem se esquecemos o guarda-chuva e blusa de frio, ao xingar o homem pelo qual somos apaixonadas e ao nos obrigar a comer canja. Sinto sinceramente que só pode dizer com propriedade quem de fato é mãe.
Portanto, sem mais delongas FELIZ DIA DAS MÃES, para todas aquelas que durante nove meses nos guardaram e que depois pelo resto de suas vidas tentam em seu íntimo nos libertar para o mundo e também para todas aquelas que às vezes aguardam bem mais de 9 meses para conseguir adotar uma criança e efetivamente seguir com o papel de mãe.
No fim, não reconhecemos as boas mães pelos filhos que geram e sim pelo amor e consciência com que os criam.
Rebecca Araujo
Escrito por Mulheres no Divã às 13h14
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Sobre o que escrever?

Sobre o que escrever? Sempre fiz isso com as palavras: as usei. Sabe quando uma mulher diz indignada pra um homem ao descobrir uma traição: “Você me usou!”. As palavras poderiam fazer o mesmo comigo.
E eu me envergonho disso a cada dia que passa. Sabe por quê? Elas estão se vingando de mim sabe. Estão sendo cruéis. Mais do que vocês poderiam imaginar. E eu me sinto tão malvada quanto um autor de música brega, que usa sempre as mesmas palavras para piorar a situação das coitadas: além de usadas, são sempre as mesmas.
Quando estou triste acabada, e preciso dizer algo que não sai....
.... bom ai eu abuso delas, faço um uso exagerado, profundo, e lá estão elas. Pobrezinhas, largadas em letras horríveis, representando todo meu amargor com o mundo. Mostrando minha dor de ser humana, e portanto imperfeita, cheia de dúvidas.
E quando preciso dizer algo pra alguém e falo besteiras que não queria, como eu conserto a porcaria? Lá vou eu apelar para as pobres, tão quietas, acabam lavadas de lagrimas e saliva (sim porque eu não só escrevo, eu converso com elas também).
Ai eu consigo organizar o MEU pensamento a partir deste proveito que tiro das desamparadas. Afinal quem poderá defendê-las do monstro que sou?
É sempre assim: quando tudo vai bem eu as deixo pra trás. E vou viver minha vida feliz. Mas quando tudo parece um oceano bravio, e eu preciso ter onde me segurar, volto correndo pra elas.
Elas sabem antes de todo mundo esta dor, este sofrimento, que tem gente que nem imagina que eu possuo dentro de mim. Até porque olha só: tenho cara de sofredora? Sei que não. Tenho motivos pra sofrer? Aprendi, depois de muito sofrer por achar que não tinha o direito de sofrer, que todo mundo tem direito a sua dor. Mesmo o mais bem sucedido e rico dos humanos tem esse direito.
Mas hoje a questão não é essa. Me sinto bem. Estou feliz, estou sorrindo pra vocês, não podem ver? Estou de férias. Pude viajar pra um lugar incrível. Tem um homem lindo que me ama e me trata feito rainha no sofá ao meu lado. Tem também dois gatinhos lindos e fofos me olhando. Tem um teto sobre a minha cabeça neste dia frio. Tem uma geladeira cheia.Tem um telefone com linha, e o mais importante, tem mais de cinco números que eu posso ligar se eu quiser conversar agora (e olha que já é mais de uma da manhã).
Tem um monte mais de coisas legais, apesar das misérias do mundo que sempre me assombram a consciência. Porque hoje resolvi me dar o direito, que poucas vezes me dou, de ser só por agora um pouco ignorante. E lembrar só das coisas boas. Hoje resolvi ser legal com elas.
Hoje vai ter sol, como ontem. Eu vejo a felicidade das crianças brincando num churrrasco de domingo com a família. Eu vejo o amor que eu sinto por todos e tudo que me rodeia tomando conta de mim. E é por isso que hoje vou escrever as mais bonitas e felizes palavras. Porque elas sempre me ajudaram, sempre estiveram do meu lado. Mesmo quando me senti a mais miserável criatura, elas sempre estavam lá. Me apoiando, me mantendo viva. Sendo meu desabafo, sendo minha dificuldade, sendo minha muleta, e até sendo meu orgulho às vezes. Muito obrigada por existirem!!! E principalmente, muito obrigada por me deixarem existir. VIDA, AMOR, MÚSICA, FELICIDADE, LUZ, GATO, IRMÃ, AMIZADE, CACHORRO, CRIANÇA, MÃE, PAI, SOL, MAR, FESTA, PROSPERIDADE, SAÚDE, VIAGEM, BONDADE, FÉ, CHUVA, ARCO-IRIS, PAZ, FOFINHO, SORRISO, BOIZINHO, LIVRO, FILME, DANÇA, GRATIDÃO, PLANTINHA, MUNDO, SORVETE, DESENHO, BRINCADEIRA, SILÊNCIO, FAMÍLIA, ENCONTRO, ABRAÇO, CARINHO, DESCANSO .............
Vão minhas palavras, sejam felizes, soltas ao vento. Obrigada!!!
Manuela A. T.
Escrito por Mulheres no Divã às 06h07
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Santo pão
As folhas caídas na tarde de outono faziam um barulho suave, como o desembrulhar de um presente. Sexta-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio.
Não que ela acreditasse nessas coisas, mas não custava solicitar uma ajudinha divina, afinal passara mais uma vez o dia anterior, dos Namorados, sozinha.
O fato não era o dia em si, nem as pessoas que não se desgrudavam nas ruas e os corações espalhados pelas lojas dos shoppings. Não eram as flores que saltavam lindas e sorridentes aos seus olhos na floricultura e muito menos aquela noite gostosa que fazia convite a um bom drinque de maracujá. A culpa era do seu gênio, ou quem sabe, do destino que fugia de suas mãos e seus poderes.
Apesar de se achar gorda durante toda tpm, de querer ter mais cinco centímetros de altura e menos cinco de cintura, ela se achava bonita. Assim, meio sem jeito, atrapalhada e espalhafatosa, mas bonita. O jeito com que gesticulava as mãos quando falava chamava a atenção dos homens, mas ela definitivamente não se achava apaixonante. Era mandona, orgulhosa, e isso afastava dela os relacionamentos de longa duração. Quando não eram eles que se cansavam de tanta exigência, era ela.
Mas quer saber? Nem ligava. Ou ao menos, demonstrava que não.
Porém, lá no fundo dormia um choro entalado de quem, mais uma vez, teve seu sonho interrompido. Fazer o quê? – se questionava. E assim, nunca dera sequer o braço a torcer e disse a verdade a eles. Achava inútil se humilhar pela atenção do sexo oposto, uma vez que são todos iguais.
Mas, parece que antes tudo isso era mais fácil. De uns tempos pra cá a sua sensibilidade havia aumentado. Será por causa da idade? Será que porque todas as suas amigas já estavam casadas e com filhos e ela ainda nem sabia dizer o que era ter uma aliança dourada na mão?
Na verdade ela só sabia sobre o aumento dos preços no supermercado, sobre a alta do dólar e sobre o governo Lula. Sabia sobre todas as marcas de sapato e os preços das bolsas da Daslu. Sabia tanto e ao mesmo tão pouco que se sentia burra quando em festas de família o assunto era casa e marido. Para rebater suas deficiências dizia ser independente e tentava se enganar: “isso tudo é bobagem”.
Talvez fosse apenas uma reação natural da modernidade, ou quem sabe uma inspiração exagerada daquelas capas de revistas femininas, onde esquecem que antes de ser uma profissional, a mulher tem desejos de mulher e suas necessidades prioritárias como amor e carinho, pois ninguém no mundo pode ser feliz sozinha. E era exatamente nisso que ela estava pensando no bendito dia do tal santo casamenteiro. Se fosse besteira ou não, dessa vez iria arriscar e decidiu fazer uma promessa.
Foi à igreja e entrou em uma fila gigantesca em busca de um mísero pedacinho de pão velho, tal qual aprendera ali o significado: fazia milagres!
Não acreditava muito, mas deveria haver algum sentido para que aquelas centenas de solteiras se sacrificassem naquela fila e então, agüentou firmemente a espera.
Chegando sua vez tentou imaginar como ela comeria o tal pedaço, que não parecia nada com um belo lanche do Mac Donald’s. Entrou na primeira padaria que enxergara para com um copo de leite poder cumprir a missão e atingir o milagre de não ficar para titia. Ao seu lado no balcão um homem ria ao notar o pedaço de pão em suas mãos e interliga-lo à imensa fila do lado de fora. Ela nem percebeu, e ao pedir o leite, ele pediu o café, em uma sincronia de palavras surpreendente.
Pois é, ele era o café, ela o leite. Visivelmente diferentes. Ele alto, ela baixa. Ele sério, ela cativante. Começaram a conversar e ela lhe contou sua aventura atrás do pequeno pãozinho. Pela primeira vez foi sincera com um desconhecido sem ter intenções. Ele se divertia a cada palavra que ouvia e a achou interessante por isso mesmo, o humor simples de uma mulher comum. A beleza ali nem era tão importante, mas não seria mentira afirmar que ambos haviam notado os pontos físicos que lhe agradavam mutuamente.
Trocaram telefone, marcaram alguns drinques e conversavam de tudo a cada novo encontro, até que em uma bela noite de outono, dia de Santo Antônio, há exatamente um ano após terem se conhecido, começaram a namorar. Se casaram e agora estão ansiosos pelo nascimento do primeiro filho, que se chamará – como não poderia deixar de ser – Antônio, em homenagem ao santo que os uniu.
Hoje ela ministra palestras motivacionais para as solteiras que ainda não encontraram o príncipe encantado. Conta sua história, incentiva a autoconfiança e o acaso e diz que o segredo é aguardar o momento certo para florir. Continua não acreditando em superstições, mas todo o ano não deixa de ofertar uma vela cor-de-rosa (cor do amor) a ele que se tornou seu santinho de devoção. Coloca tudo no altar que fez seu marido construir em casa junto a um pedaço de papel com a frase: “Agradeço o milagre recebido”.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 22h26
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Corte (s) e Costura (s)

Ela poderia dizer que quando ele chegou estruturas foram abaladas
E que ao partir ele havia deixado indiscutivelmente um gosto doce em sua boca apesar de brigas, agulhadas e alguns arremates...
Naquela máquina de costura que periodicamente precisava de óleo para o bom funcionamento, ela muitas vezes cansada conseguia elaborar diversas versões para a própria vida.
No surreal de seu imaginário, às vezes era o dedo anular que pagava com furões da agulha que machucavam bem menos que a certeza de que nos últimos tempos ela era tão maleável quanto aquele tecido de fazer samba canção...
O motor e barulho da máquina antiga poderiam ser escutados de longe, assim como as palpitações de seu coração e a inquietação de sua mente. Às vezes por tamanha concentração e silêncio, até parecia que a máquina tinha mais vida que sua própria condutora.
Depois de mais de 12 horas sentada e exausta após tanto trabalho, ao terminar mais uma camiseta ela sentiu a realização de saber que pelo menos em algum momento ela estava no controle da situação. .
Com o cuidado que se tem apenas com coisas que valorizamos ou pessoas que amamos, ela encerrou mais um expediente. Não precisava bater cartão, mas tinha um compromisso diário com a qualidade do que fazia.
Levantou e delicadamente cobriu a máquina com aquela capa um pouco empoeirada, mas que tinha o valor inestimável daqueles objetos que ganhamos de pessoas queridas. Ao olhar para seus pés um pouco rachados, ela imaginou que talvez precisasse de uns aparos, assim como a barra italiana que havia feito no dia anterior, e que talvez ela conseguisse restaurar amizades e amores com a mesma facilidade que o óleo deixava a máquina mais leve e menos barulhenta.
Sentada na beira da cama, olhando para o teto com estrelas fluorescentes ela comparava tecidos com pessoas e dava risada de si mesma com aquele universo tão esquisito que se abria no teto de seu quarto ou seria no teto sua imaginação?
No dia seguinte, a máquina antiga ficou de lado e ela costurou à mão para consertar a alça do seu vestido preferido, aquele que ele havia rasgado na última briga e que apesar de tudo lhe trazia boas lembranças.
Após um banho, um batom, um salto e uma olhada no bumbum ela saiu com a certeza que naquele dia muitos cortes e costuras seriam feitos...
Rebecca Araujo
Escrito por Mulheres no Divã às 13h17
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Conselho à juventude...

Quantas vezes olhávamos no espelho e o que víamos não era exatamente o que queríamos ser. Espinhas espalhadas pelo rosto...o cabelo que nunca se ajeitava e nem adiantava passar aquele bendito creme de pentear...isso sem contar que os cachos saíram de moda. E no sorriso...aquela cor metálica que tínhamos que exibir.
Era melhor parar por aí... mas tinham os seios que não conseguiam preencher nem o tamanho 36 do soutien...isso contando que o silicone entrou na moda.
E pra variar o príncipe dos nossos sonhos não ligava a mínima pra nossa existência, os finais felizes dos filmes nunca aconteciam com a gente.
E o tempo vai passando e vamos tentando ficar melhores pra agradar sei lá a quem.
Mas de repente tudo isso passa , te garanto ,é quando aprendemos a respeitar e a valorizar quem somos, e temos orgulho até dos nossos defeitinhos, porque eles nos fazem sermos únicas e mulheres de verdade.
E finais felizes acontecem sim, e se você não ficou com o mocinho, acredite: ele não era o mocinho e merece mesmo aquela chata fútil com voz de taquara rachada.
Porque o mocinho aparece nas nossas vidas e nos amam por motivos verdadeiros, não porque somos bonitas, mas porque também somos bonitas. Não porque ele não terá vergonha de nos apresentar pros amigos, mas porque seremos amigos.
E quando aquele ciuminho bater ao passar uma capa de revista ... Relaxe...
Seu amor verdadeiro vai preferir você!
Natalia Luccas
Escrito por Mulheres no Divã às 05h17
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Alice no mundo de Copas

Escutando aquelas músicas, lembrando das guerrilhas colombianas, do caso Isabella e dos tsunamis de sua própria vida, Alice sentou, mas dessa vez não chorou....
As lembranças existiam e podiam ser eternas, mas seus sentimentos não...
Talvez ela quisesse negar aquele nó na garganta ao vê-lo no trabalho, no msn ou ao vê-lo em qualquer lugar.
Mas como dizia a grandiosa Martha Medeiros, mesmo se a vida estivesse certinha, haveria sempre um romance mal resolvido, um botão caído, uma carta jogada...
E haveria também aqueles romances que nem aparentavam romance, eram enrustidamente amizade, admiração ou quem sabe ódio...
A verdade é que só você poderia saber o que sente ou talvez não...
Por isto entender o mundo de copas para Alice era cada vez mais complicado...
Entender o preço absurdo do feijão, o presidente falando pobrema e a CPI dos cartões corporativos doía, mas nem tanto como a curiosidade de saber por que seu amor tinha ido viajar sozinho, por que o emprego rareava, o peito caía e por que aquele cara boa pinta gostava dela, mesmo a vendo sempre de moletom rasgado, sem gloss e pior; porque ela continuava a gostar daquele feio, mas tão sedutor homem que às vezes a ignorava.
Alice tinha vários defeitos, mas talvez o pior deles fosse o romantismo...
Então a maioria dos seus problemas se restringia ao amor em qualquer que fosse a sua forma. Ela acreditava que dessa forma minimizaria ou unificaria todos os problemas do mundo.
Alice parecia viver no país das maravilhas e sua mãe sempre dizia que ao escolher seu nome imaginava uma menina princesa e era justamente assim que ela se sentia com aquele vestido ao lado dele...
Mas Alice também tinha seu lado Rainha de Copas, era espevitada, tinha vontade de cortar a cabeça de muita gente... Algumas vezes confesso que até a ouvi gritar.
Porque Alice não era uma personagem
Alice fazia promessas demais, Alice era a hélice catalisadora de ventos a favor.
Alice era a mulher do elevador, a tia que vende hot-dog, a executiva, a estudante...
Alice era real e poderia ser o espelho.
Rebecca Araujo

Escrito por Mulheres no Divã às 10h08
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De onde vem a força
Acordei, como todo mês, com uma dor que além de me deixar sem ar, me contorcia pela cama. Travesseiro apertado, bolsa de água quente, remédio; nada disso fazia efeito. Malditas sejam as cólicas!
E como se não bastasse, ainda tinha que ajeitar o café da manhã, fazer supermercado, levar a filha à escola, inspecionar o trabalho da diarista, vestir a roupa apertada e o sapato de salto, trabalhar o dia inteiro, almoçar em dez minutos, ir ao salão de cabeleireiro e ficar linda para um jantar de negócios do marido à noite.
Era como se na mesa bem arrumada, repleta de pessoas inteligentes e gentis que falam o tempo todo em como os investimentos valem a pena, a minha dor tivesse passado, mas não - estava apenas maquiada, literalmente, no rosto e na espontaneidade de sorrir mesmo querendo chorar.
Ao chegar em casa, animado pelo vestido preto que me deixava atraente, ele ainda tentou fazer amor. Como? Eu pergunto – uma vez que não conseguia nem pensar com tamanha fragilidade e raiva (sim, porque nada mais irritante do que estar na TPM!).
Não é falta de amor, de atração física. Não é que o relacionamento está esfriando, nem tampouco que exista outra pessoa. Sou eu, minhas estranhezas de mulher e minha pura e inocente vontade de me deitar de lado, me encolher como um feto na barriga da mãe e dormir, dormir como um anjinho. Até claro, o despertador insuportável disparar aquele som terrível e começar tudo de novo.
Tentei explicar, respirei fundo e tive todo cuidado do mundo nas palavras. Se ele não entendeu, ao menos foi bem convincente. E quando tudo parecia estar caminhando bem, no meu cochilo costumeiro que antecede o sono, com as mãos macias dele acariciando a minha orelha, ela grita.
Sim, a bebê queria mamar! E como nesta tarefa não há marido que possa ajudar, lá vou eu, capotando de sono.
Já sei toda a programação da Tv de madrugada. E aprendi como mãe de primeira viagem, como é a agonia de um seio que se parte pela falta de costume em amamentar. A cada sugada, a vontade de gritar misturada com o carinho inabalável de ver aquele rostinho tão pequeno matando sua fome.
Bem-vinda ao mundo real! – é o que as pessoas mais maduras me dizem e eu mesma começo a aceitar.
Mas tenho que admitir que apesar de trabalhoso e cansativo, nenhuma compra no shopping me fez mais feliz do que todo esse mundo novo que se abre a cada dia. Experiências únicas que me tornam mulher com M em cada lágrima, sorriso, destempero e zelo.
Ao pensar assim qualquer cólica se torna pequena. Deve ser por isso que dizem que as mulheres são fortes: porque sempre vêem o lado positivo, fazendo a beleza do amor ser maior que qualquer dor que possam sentir, transcendendo os limites de si mesmas para viabilizar a família, a vida.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres no Divã às 05h52
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Sapos ou príncipes?
Ela pegou o telefone.
Há dias estava se controlando ao olhar para o aparelho na tentativa de evitar mais uma ligação em que desligaria sem saber o que pensar, mas ele parecia mais irresistível que o maior pedaço de torta holandesa do Amor aos Pedaços.
Por um momento quis planejar sua fala, mas desistiu. Queria ser ela, dizer tudo o que estava sentindo, sem previsões ou jogos femininos.
Ele atendeu ao segundo toque. Aquela voz. O timbre lhe era tão familiar quanto todo o corpo, sempre tão íntimo como se o tivesse visto por toda vida em aulas de anatomia.
- Liguei pra dizer que estava pensando em você!
Ele não deve ter entendido nada – concluiu.
- Lembranças boas ou más?
- Boas. Não me lembro das ruins.
Conversa vai, conversa vem. Se despediu com um sorriso de orelha a orelha.
Dessa vez ele fora mais claro, ou será que ela foi mais explícita?
Não haviam passado dez anos desde que se conheceram, mas a impressão que tinha é que virara de criança à adulta em menos de uma semana. Não era a diferença ao se olhar no espelho, mas a diferença notória em seus pensamentos e atos.
Isso a assustava no começo, agora não. Se sentia autêntica, aprendera a olhar nos olhos, falar a verdade nem que ela fosse impiedosa, a dizer não, saber o que quer para si, assumir seus medos e enfrentá-los. Aprendera até a concordar com as pessoas, uma raridade.
Agora sim se sentia mulher, dona de seu nariz e suas opiniões.
Agora olhava de frente, cabeça erguida. Ele não era mais algo inatingível ou intocável. Era o homem que apesar de inúmeras vezes ter duvidado, a amava.
Um conforto inexplicável a invadia, contrariando todas as inúmeras teorias feministas que sempre defendia com unhas e dentes.
Esses dias foi até obrigada a concordar com uma palestrante ao ouvir sobre o machismo. Teve que admitir que fazia sentido, pois também achava o máximo quando ele abria a porta do carro, pagava a conta, carregava as sacolas das compras, mandava flores, abria a latinha de refrigerante para ela não quebrar as unhas. Isso sim é o que costumava chamar de “homem de verdade”.
Ao fim da conclusão pegou um livro e foi ler.
Ela é apenas um exemplo. Uma amostra de como temos uma inteligência emocional duvidosa.
A verdade é que em forma de sapos ou príncipes, eles podem sim, em questões de segundos nos levar ao céu ou ao inferno, e muitas vezes até aos dois ao mesmo tempo. E por mais que neguemos, ainda estamos habituadas (ou apaixonadas) pelo conceito do felizes para sempre, com a esperança de unir a modernidade e independência feminina com a gentileza e a força masculina.
Os homens são de Marte, as mulheres são de Vênus – a eterna inspiração de livros, peças teatrais, filmes e afins mostra cada vez mais que as teorias muitas vezes são apenas teorias, pois na prática tudo muda de figura. O coração ainda vence a razão e nessa batalha, nem homens nem mulheres são vencedores. Quem ganha é o sentimento, e contra ele, nem a maior das inteligências é capaz de lutar.
Portanto, sapos ou príncipes, histéricas ou carinhosas, somos todos únicos em busca de algo muito maior que um par de chinelos ao lado da cama. Não somos auto-suficientes, e por mais que não queiramos admitir, todo mundo acha lindo aquele casal de velhinhos de mãos dadas nas ruas. Isso é o fluxo da vida, o fluxo do amor.
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres de Fases às 00h00
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Mulheres e Furacões, vá se entender...
Quero aqui fazer um apelo para que as mulheres não se rendam às capas de revista, afinal que mulher poderia ser daquele jeito 24 horas???
Hoje saí do trabalho com uma cólica que me embranqueceu, a vontade era de desmaiar, uma dor latente, que sempre me visitava, a hora que eu lembrava: Puta que pariu, sou mulher. E como meu rímel estaria em ordem ou eu poderia agradecer delicadamente aquele cliente tonto que fez uma piada sem graça?
Somos mais que uma capa de revista, somos mulheres que podem ter a coragem de Anita Garibaldi, a bondade de Madre Teresa de Calcutá, a ousadia de Madonna, a petulância de Pagú e a consciência de Olga Benário.
Mesmo os eventos da natureza como os furacões, até meados da década de 70 apenas tinham nomes femininos.
Mulheres também fazem história e como fazem...
Histórias de paixões mal resolvidas, histórias de coragem que são diariamente esquecidas ora porque não nos valorizamos ou apenas porque no meio do turbilhão de pensamentos nossos atos gloriosos se perdem com o pensamento do que será feito na janta ou em como conseguiremos sair da reunião e buscar o filho às 17hs.
Tantas funções acumuladas são as vantagens e desvantagens do feminismo e da sociedade atual.
Portanto, fazia questão de às vezes ir descabelada para comprar um pão ou andar como uma mendiga em casa, me dava o luxo de nem sempre fazer minhas unhas ou dizer a todos que tinha celulite e estria sim, para que mentir?
A modernidade trouxe tantas possibilidades que nos deixou complexadas simplesmente porque tentamos competir com o inexistente: Mulheres inventadas pela mídia.
Seria tão bom se tivéssemos a naturalidade dos homens para isto, afinal assumir a barriguinha de chope e rir quando a cueca aparece para eles é divertido, para nós absurdo...
O que precisamos é de mais cordialidade umas com as outras, de mais valorização com as nossas qualidades interiores e de menos exigência quanto a nossa similaridade com as “mulheres inventadas”, afinal photoshop existe para isto.
E antes que digam que eu sou mal amada e que devo ser uma gorda e feia eu me antecipo:
Tenho as mesmas neuroses de todas as mulheres, sempre acho que estou acima do peso e que aquela lingerie ficou horrível, que bem que poderia usar 36 ou 38 e estar sempre linda e arrumada, mas quer saber???
Sou feliz mesmo com meu jeans 42 e minha cólica que me deixa um monstro crec crec de irritabilidade simplesmente porque sei que o mais importante é saber que ser mulher é especial porque afinal quem mais na face de terra poderia ser um misto de coragem, delicadeza, beleza e confusão...
Quem mais poderia denominar tantos furacões???
(Rebecca Araujo)
Escrito por Mulheres de Fases às 13h49
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Complicadas e perfeitinhas
Uns dizem que nós somos de Vênus, outros, de fases como a Lua. Mas o que todo mundo sabe é que ser mulher é muito mais que possuir um sexo diferente do masculino, falar fino, usar saia, pintar as unhas e ter o poder da maternidade. Não que isso não seja de absoluta magia e fascínio, mas somos mais.
Mais que uma data para recordar o desastre do incêndio da fábrica que matou centenas de operárias. Mais que a esposa, a mãe dos filhos, a namorada, a filha, a colega de trabalho. Somos únicas, histéricas, amigas, loucas e serenas, conselheiras e carentes. Somos engraçadas e rudes, carinhosas e autênticas, com ou sem TPM.
Em resumo, como diria a música do Raimundos, somos complicadas e perfeitinhas.
E eles reclamam, não entendem, discutem, mas não vivem sem a gente, pois, o que seria do mundo sem essa estranha alquimia Mulher X Homem?
Não estamos aqui para discutir as diferenças nem tampouco fazer alardes sobre os defeitos que achamos no sexo oposto, mas para tentar explicar, desenhando se preciso for, o que pensamos sobre a vida, os relacionamentos, os acontecimentos.
Uma espécie de RaioX feminino cujo único objetivo é expor os pontos principais desse mundo particular em que vivemos, o mundo cor-de-rosa.
Experiências narradas através de histórias vividas e/ ou fictícias, transformando esse espaço em um fórum sobre os assuntos abordados nos textos, podendo assim, quem sabe, auxiliar o auto e alheio conhecimento, nessa tarefa difícil e necessária que é a interpretação dos casais, familiares e amigos.
Uma terapia grupal, digamos.
Portanto, sentem-se no divã, relaxem e mãos à obra!
(Érica Marin)
Escrito por Mulheres de Fases às 21h21
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